1-2 -<nuclear-5-na> = notícias do apocalipse - os dossiês do silêncio – o tecnoterror nuclear - Sexta-feira, 25 de Julho de 2003
O PINGUE-PONGUE
DOS CANIBAIS (*)
(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal «A Capital» (Crónica do Planeta Terra), 30/11/1979
30/11/1979 - Num comunicado distribuído à imprensa, em 27 de Outubro de 1979, o vice-almirante J. C. Walters, comandante-chefe das forças navais da África do Sul, declara ser «do domínio público que, no período de Setembro, um submarino nuclear soviético da classe "Echo II" cruzava a passagem estratégica à volta do cabo da Boa Esperança. Entretanto, na mesma data, o diário comunista "Neues Deutschland», órgão central do Partido Socialista Leste-Alemão (S. E. D.), acusa a N. A. T. O. e «em particular os Estados Unidos e a R. F. A., de terem ajudado a África do Sul a dotar-se da arma nuclear».
«Se as informações mais recentes forem confirmadas - chega a escrever o "Neues Deutschland"-«o regime racista sul-africano tentará utilizar a arma nuclear para exercer chantagem sobre os povos africanos».
Quem assim fala não é gago, sabe o que diz. Sabe principalmente como uma potência atómica se pode servir desse atributo para fazer chantagem com quem lhe apeteça. Bem o sabem as potências atómicas que são a URSS e os Estados Unidos, potências que regularmente fazem deflagrar as suas bombas subterrâneas sem que ninguém levante o alarido que se levanta agora a propósito de uma suspeita «bombinha» (menor que a de Hiroxima) algures no Austral.
Por isso mesmo, os Estados Unidos, embora aproveitando a esplêndido «bode expiatório» que uma ditadura tão negra como a sul-africana, pode tão a contento desempenhar, usa de certa prudência e, na mesma data (27 de Outubro) «evitando embora acusar formalmente a África do Sul, fez notar que esta era a única potência da região susceptível de ter provocado a referida deflagração.
Mas porque se insiste numa bomba sul-africana, quando a verdade é que se levanta também a hipótese de ter explodido um submarino nuclear? E será novidade também que um satélite caia ou expluda?
Se o vice-almirante sul-africano vai lembrando que por ali andou manobrando, durante todo o Setembro, um submarino atómico soviético, todos sabemos que tanto podia ser soviético como americano ou francês, pois todos eles (e se a memória não nos falha, a Alemanha Federal também) possuem submarinos nucleares.
SE NINGUÉM SABE AO CERTO O QUE FOI
Se ninguém sabe ao certo o que foi - ou nos contam o piedoso conto de fadas (e do vigário) dizendo que não sabem, sabendo -, porque se acusa unilateralmente este ou aquele? Entre todos os potenciais e eventuais autores culpados do que se passou, porque passam tão depressa a juizes de vara na mão os que teriam de ser os primeiros réus num tribunal de Nuremberga para julgar as patifarias nucleares?
Que moral é a destas duas potências, que semanalmente vão fazendo explodir subterraneamente bombas cada vez mais potentes, e provocando com isso vagas sísmicas que vão matando, regularmente, milhares de seres humanos, que raio de moral é a destes «gangsters», destes canibais para virem dizer que a África do Sul é um espanto?
E se fosse?
Seriam os Estados Unidos a ter moral para a apontar à humanidade?
Seriam os soviéticos?
Seria uma das duas potências que semanalmente nos vão debulhando com o seu metódico terror sísmico-nuclear?
Ou ser potência atómica tem diuturnidades?
Que a África do Sul é racista, todo o mundo sabe. Vai daí, em que é que é mais criminosa a bomba dela do que as superbombas dos outros dois?
Quando e se os submarinos atómicos de quem os tem explodirem, como parece que terão explodido, este ano, pelo menos dois, será que as duas potências atómicas o vão dizer?
Não será mesmo que as únicas a saber o que se passou na África Austral são elas? E que, na apoteose do cinismo, agora resolvem apontar a dedo o fácil bode expiatório da negregada África do Sul? Que grande jeito faz uma ditadura à antiga a estas democracias que só admitem os seus métodos de liquidar a gente e não admitem os dentes canibais dos Bokassas comendo criancinhas com amendoim? Em que raio se distingue um antropófago de uma potência nuclear de 1ª classe?
Sem papas na língua e já um tanto irritado com toda esta cadeia de aldrabices, salienta-se ainda, no mesmo dia 27, o «Washington Post», que num editorial considera preocupante que os Estados Unidos, após cinco semanas de investigações e pesquisas, continuem incapazes de dizer que país realizou uma experiência nuclear, e até se houve ou não experiência». Assim se exprime, algo indignado com tanto progresso técnico que nos momentos críticos falha sempre, o sisudo «Washington Post».
E o mistério continua. Com acusações desencontradas, cada um procurando limpar a portada o «melhor possível» (arredando a explosão para a do outro, mas ficando no ar, sempre e apenas, o mesmo cheiro a vómito que estas coisas nucleares sempre deixam). Especialmente quando os heróis e potentados do dito nuclear não estão em condições de assumir as responsabilidades pelos acidentes de que são causadores.
Também podia ter sido um satélite: e desse lixo (como se sabe há em desórbita muitos satélites nucleares) tanto têm russos como americanos. Se acaso foi um (mais um) satélite que explodiu, bastante tempo levaremos para saber ao certo o que houve e como.
Aliás, os comunistas do jornal leste-alemão, que tão lépidos vêm acusar (e ainda que não haja nenhuma certeza) a África do Sul, apressando-se a dar como certa a bomba desta tão negra ditadura, porque só agora gritam e fazem tamanho chinfrim? Não têm eles também satélites espiões para saber espiolhar isso tudo muito bem? Para saber quem rebenta bombas e quem sofre os sismos? Ou os satélites da poderosa e astral nação dos «sputniks» também avariam como os do imperialismo americano? Então só agora é que acordaram para o perigo da África do Sul poder vir a «fazer chantagem com os povos africanos», empunhando a bomba?
Só agora que os seus queridos aliados americanos «descobriram» bomba sul-africana, vêm eles, amestrados comunistas, chocalhar também sua repulsa?
Que pingue-pongue de canibais é este?
Canibais que são todos, porque não se mastigam uns aos outros e não nos deixam em paz?
Principalmente, porque não deixam de nos contar histórias da carochinha, com satélites, bombinhas e eventualmente auroras boreais?
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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal «A Capital» (Crónica do Planeta Terra), 30/11/1979 ™™™