1-2 < 80-12-12-ie> ideia ecológica - quinta-feira, 6 de Março de 2003-novo word - <megaplan> -<ecos>-

12/12/1980

ECOS DA CAPOEIRA

A MARCHA PRÒ PROGRESSO

Já se vê a saída do túnel e somam-se as realizações que vão beneficiar a «economia portuguesa» e o desenvolvimento do País, que dizem todos estar muito subdesenvolvido.

Tenhamos então em conta os beneméritos progressos do progresso operados por quem pode, no sentido de sermos, em breve, quase tão bons, tão ricos, tão cancerosos, e tão poluídos como os melhores do mundo da Europa.

Petrogal volta à carga (6/8/1980) com a prospecção sísmica das jazidas petrolíferas, que ela teima em descobrir: não poupa assim os concelhos de Torres Vedras, Arruda, Sobral, Alenquer, Vila Franca de Xira, Loures, Barreiro e Moita.

Ponto muito importante «a bem da nossa economia» (nossa, quer dizer, tua, minha, do povinho em suma) é que as despesas com estas prospecções, à partida falhadas, porque já toda a gente sabe não haver pinga de petróleo por aqui ( ou, mesmo que haja, não convém, por enquanto, divulgá-lo), é que o «investimento requerido é inteiramente suportado pela Petrogal». Com as outras «gais» todas que deram à luz depois do 25 de Abril, com as nacionalizações, eis-nos todos a pagar estas despesas com as sondagens petrolíferas. Tome nota o povo português: já sabe que é para seu benefício, portanto pague e não bufe.

Outro alto benefício igualmente acatado por jornais de todas as cores, é o Douro navegável. Ninguém sabe como, mas eles gritam todos que vai haver navegabilidade em barda Douro abaixo, Douro acima. A radioactividade provinda da futura central de Sayago, a 12 quilómetros de Miranda do Douro, não precisava de tantos «affadigatos» a tornar navegável o Douro. Moncorvo diz que vai mandar, rio abaixo, o minério. Mas segundo um célebre colóquio, realizado no IST, sobre o Plano Siderúrgico, as mais eminentes autoridades classificaram o projecto Douroviário como uma peluda ficção de cabecinhas louras/loucas.

Mas o «desenvolvimento» e a nossa ofegante marcha para a Europa, não cessa. Ferve sempre. E os jornais que se dizem de esquerda reproduzem, com a mesma neutralidade, a mesma naturalidade, as telexadas que reproduzem os da direita, ao ecoar a última do almanaque americano «The Book of lists».

Almanaque que mande uma boca sobre Portugal, colocando-o em situação de cauda e eis os jornais, progressistas de esquerda e progressistas de direita, todos desenvolvimentistas, reproduzindo logo, não vá acabar-se. «Portugal é um dos países com capacidade técnica para produzir um engenho nuclear dentro de sete anos.»

Em forma de fálo que é para enfiar melhor na boca de quem escreveu o artigo e nem só.

Eis um motivo de orgulho para os portugueses. Depois do bacalhau com batatas, com efeito, uma central nuclear é o que um bom patriota mais ama na vida.

Um engenho nuclear para atirar a quem, é que o «Book of lists» não disse mas deduz-se. Nem disseram os jornais que, a papel químico, se limitam a reproduzir a treta toda que os outros despejam aqui, sem se ocuparem de comentar como e para quem.

Engenho nuclear? Oh! Que honra! Veiga Simão, interrogado por Canal 2, porém, disse que Portugal não queria engenhos e muito menos fálicos. Tínhamos àvondo com os engenheiros que temos a roer-nos todos os dias a paciência. Mas centrais nucleares, sim, redondinhas e donairosas, jamais o túnel português poderia dispensar tamanha luz para a nossa escuridão.

Que gente competente que a gente tem! E como levam a sério estas anedotas dos engenhos e das centrais! E como levam a sério o papel de apascentar este enorme povo de carneiros. Sem ofensa, claro, que os há para todos os gostos, bons e tenrinhos.

[In «Eva», Abril/ 1973 ????]