1-2 <80-09-25-di> sexta-feira, 24 de Janeiro de 2003 – novo word - <indigest><diario> 3365 caracteres - Diário de um anarquista lúcido - coeficiente de radicalidade - **** estilo - *** coeficiente de intemporalidade - *****

[in «Barlavento», 25/9/1980]

A SOCIEDADE DA INDIGESTÃO

E O CHARME DISCRETO DA BURGUESIA

Tenho uma certa pena da burguesia, coitada, tanto quanto invejo o seu charme discreto. É que não se pode gozar totalmente as delícias do luxo por causa do lixo, os prazeres da carne por causa do apocalipse, quer dizer, não se pode deglutir em paz «la grande bouffe» do grande regabofe consumista e fazer normalmente a sua normal digestão.

Mais claramente: a burguesia come hoje as últimas fatias do bolo que teve só para si. Ela bebe hoje os últimos uísques da bebedeira, dizem outros. De qualquer maneira, o cinismo alvar com que ela continua a matar, advém-lhe precisamente dessa certeza que a burguesia tem de estar a «queimar os últimos cartuchos», de estar a gastar os últimos recursos naturais da Terra, de estar a destruir as últimas espécies, os últimos espaços, os últimos rios e oceanos, sabendo ela melhor do que ninguém (ninguém melhor do que o criminoso conhece o crime) de que está no fim e de que quem vier depois nem o osso encontrará.

O cinismo da burguesia recairá totalmente sobre a geração seguinte. Por isso a burguesia, à mesa do grande banquete, sofre por três motivos:

O que mais me condói na burguesia assustada com o holocausto, porém, é que não pode deixar de usar perfumes caros, dado o insuportável cheiro a podre que o planeta exala. E é ver, também, que já nada é tranquilo, nem ameno, para essa classe que julgou comprar tudo (até segurança, tranquilidade, saúde) com dinheiro.

As viagens internacionais, por exemplo, um dos seus passatempos predilectos, são um horror. Aviões que caem, hotéis de primeira devorados pelas chamas, paquetes que vão ao fundo abalroados por petroleiros gigantes, portadores da prosperidade do próspero mundo ocidental.

A técnica não é infalível, ai de nós, e o dinheiro não compra tudo.

Quando esta constatação chega ao espírito penetrante do tecnocrata arguto, ilustre quadro técnico, ilustre especialista, funcionário diligente e amestrado desta sociedade cancerosa, é de facto o fim da paz.

A burguesia então, com perfumes caros, interroga-se: teria valido a pena destruir a Terra para agora os aviões estarem todos rotos e os hotéis arderem como papel?

Depois, o terrorismo e os malditos sequestros estão na ordem do dia: que vida esta! Já não se pode tomar o nosso uísque em paz. E em vez de saboreados, sorvidos com gosto ao pé daquela quente lareira de cenário escocês, com sotaque muito «made in england», os últimos uísques da burguesia sabem a borra. Com b.

E os perfumes caros, que a burguesia não pode dispensar, têm o cheiro nauseabundo de uma refinaria petroquímica.

Como a burguesia e o seu discreto charme me doem, Deus!