1-3 - <frente-2-ie> ideia ecológica do afonso - memórias da frente – breviários do ecologista – diário de um idiota – mein kampf

COMBOIO DE LOUCOS (*)

(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no semanário «Voz do Povo» (Lisboa) , 12 e 19/12/1978 e no semanário «Gazeta do Sul» (Montijo)

1

12/12/1978 - Vou servir-me de uma imagem roubada a Gaston Berger, mestre francês da Ciência Prospectiva.

A sociedade tecnológica e industrial poderá ver-se como uma espécie de comboio-fantasma caminhando a velocidade fantástica, no meio da noite, para um destino desconhecido.

Se se trata de uma sociedade capitalista, a marcha desse comboio é ainda mais descontrolada e desenfreada; não há sequer faróis para alumiar o terreno e na cabine de comando seguem estranhos homens cujo estado mental oscila entre a loucura e a bebedeira, entre o macaco e o homúnculo.

Em sociedades não capitalistas - quer dizer, de eonomia planificada – a marcha do comboio é também de noite, sem destino certo, de faróis apagados e o estado mental dos condutores não deixa de suscitar dúvidas e os maiores receios.

Ora, dentro desse comboio, que marcha sem freio e sem destino certo, vamos nós todos embarcados, queiramos ou não.

Quando alguns acordam e sentem que, de facto, a marcha é a um ritmo trepidante e inquietante, fala-se de apocalipse ecológico. 0 que os mais lúcidos - ao acordar no meio do pesadelo que é a sociedade de consumo - querem dizer é que o comboio fantasma onde vamos metidos - ou seja, o modelo de crescimento industrial e tecnológico de ritmo exponencial - segue em marcha desabrida, com os faróis apagados e guiado por loucos, semi-loucos, drogados, intoxicados, em suma, doentes, para uma meta desconhecida.

2

0 mais trágico e, ao mesmo tempo risível, é que são esses doentes, drogados, intoxicados, alienados e loucos os que se arrogam o direito de governar a sociedade de consumo, quer dizer, o tal comboio fantasma em marcha desenfreada para o abismo, no meio da noite de breu!

São eles, os técnicos, quem nos trata da saúde, quem proíbe inclusive que nós próprios tratemos da nossa saúde e, finalmente, nos descolonizemos da sua prepotente Opressão. São eles, técnicos, quem decreta afinal toda a escala de valores, o que é moral e o que é imoral, o que é económico e o que é antieconómico, o que é pecado e o que é virtude, o que é revolucionário e o que é reaccionário.

Neste comboio de loucos, de facto, humor e terror andam sempre ligados.

Um facto é evidente, porém, e logo ressalta: os que se agitam dentro das carruagens de 3ª classe, sem poderem controlar a marcha do comboio, já se aperceberam de que estão a ser conduzidos por loucos e que o comboio caminha para o desconhecido, que na melhor das hipóteses pode ser um abismo ou um obstáculo contra o qual se esmague toda a composição.

Ao falar deste triste fim para a espécie humana, o ecologista (o tal que marcha na carruagem da retaguarda e sente ou pressente melhor, portanto, a totalidade da marcha) não está, ele próprio, a desejar o fim, a irremediável destruição, o apocalipse; ao gritar, sem ser ouvido, de que a marcha do comboio fantasma nos conduz para uma catástrofe. É evidente que o não faz por gosto sádico de assustar os companheiros de jornada. Não é ele, tão pouco, e uma vez que segue na cauda do comboio, o culpado dessa marcha. Ele apenas tenta é avisar a malta.

Ele apenas tenta dizer quem vai a guiar a Diesel infernal. Não é ele o alarmista, nem deseja criar usa psicose de medo entre os camaradas de viagem. Ele é o único que dá o aviso, a ver se ainda é possível refrear o comboio e abrandar a marcha.

3

Nada mais injusto e inexacto do que esta acusação de alarmismo feita aos militantes da Ecologia. Eles - dizem os responsáveis pelo suicídio ecológico, tentando lavar as mãos tintas de sangue - desmoralizariam a humanidade, desarmariam a luta e seriam, em suma, uns reaccionários que tentavam, a todo o custo, travar a marcha do progresso, identificada esta marcha com a do tal comboio guiado por psicóticos.

De facto, a famosa marcha do progresso não é mais nem menos do que o tal vagão de Morte, em desenfreada marcha pela noite do obscurantismo: ora eclesiástico e clerical; ora fascista; ora tecno-industriocrático , tecno-burocrático e tecno-biocrático: este é o fanatismo-obscurantismo a que teremos hoje, fundamentalmente, que fazer frente, com os faróis da inteligência critica, da imaginação criadora e da iniciativa lúcida.

Aqui e em toda a parte, devemos dizer que os verdadeiros, que os autênticos militantes da Ecologia, são os únicos a defender a Terra, a Natureza, o Ambiente; são os únicos detentores da inteligência crítica e da contestação saudável, no meio de loucos e suicidas; são os únicos guerrilheiros da vanguarda criadora e revolucionária, contra a loucura colectiva de sistemas demenciais, geridos por dementes profissionais, chamados cientistas.

4

Se me disserem que a Imprensa em particular e a Informação em geral ajuda a esta paranóia colectiva, é evidente que sim, que ajuda, uma vez que o sistema informativo não é mais nem menos do que um dos sub-sistemas que servem o Sistema Biocida e Ecocida em geral.

Mas sejamos justos: na maior parte dos casos, os jornais apenas reproduzem a porcaria que lhe mandam. Apenas se limitam, na maior parte dos casos, a transmitir ideias feitas, lugares comuns, palavras de ordem emanadas da cabine de comando aos restantes tripulantes da nave espacial chamada Terra.

No meio da grande confusão de narizes que é, de facto, o interior desse monstruoso expresso da Morte chamado sociedade de consumo, só um ou outro mais perspicaz - ou apenas mais humano? - tem a consciência verdadeira do que se passa e da totalidade do que se passa.

Essa totalidade é a consciência ecológica da humanidade, esse é o homem novo, que técnicos e outros reaccionários, ao serviço dos sistemas de Morte de que são profissionais bem pagos - tudo fazem para ocultar, denegrir, inclusive recuperar.

Com a ajuda dos órgãos da Informação evidentemente, - porque são os órgãos destinados a criar dentro do comboio um clima favorável aos desmandos da central.,.- os sistemas de Morte, quer dizer, os autores do Biocídio, do Ecocídio, do Genocídio e do Etnocídio, tudo fazem para liquidar a consciência ecológica, de forma a que não haja a noção geral da marcha.

5

Entre as formas que a tecnocracia de loucos e drogados tem para liquidar a subversão ecológica, uma das mais anedóticas, uma das mais humorísticas é a luta anti-poluição.

Vamos rir um bocadinho com a luta anti-poluição. Quando há toda uma revolução do sistema a fazer, quando é todo o comboio, vagões e motorista, a pôr em causa - porque vamos lá embarcados - eis que vem o técnico da anti-poluição dizer-nos que o problema é só de retaguarda e no tubo de escape.

Toda a política do Ambiente que vier de fonte tecnocrática (e à parte o movimento ecológico mundial, não existe outra), que nos vier dos profissionais do Ambiente, não é mais nem menos do que uma deturpação do problema (o avesso do problema) para evitar pôr em causa o sistema e em tribunal os responsáveis, autores ou funcionários do Sistema do Desperdício.

Mais humorístico ainda é quando - dado o bom acolhimento que a consciência ecológica vai tendo e colhendo entre as vítimas do sistema, entre os amigos da Terra, da Natureza , da Humanidade e do Ambiente - o mais humorístico é que à luta anti-poluição fascista, à política do Ambiente reformista já se aplica a palavra "Ecologia".

Valha-nos São Barnabé advogado da Poluição! Que grande barafunda e quem vai ganhar, uma vez mais, com esta barafunda?

Está-se mesmo a ver: os profissionais do Ambiente já se preparam para mais cargos e encargos, sabiamente remunerados, com diploma de bacharéis, para retomarem de novo o poder , minutos antes ameaçado, calar e encarcerar os recalcitrantes do movimento ecológico e continuarem a marcha desenfreada para o suicídio da Terra, para a catástrofe planetária.

6

Como jornalista profissional que tem a honestidade suficiente para fazer auto-crítica sempre que necessária, e para acusar o sistema informativo sempre que ele , de facto, é apenas mais um atraso de vida ao lado de tantos outros atrasos de vida, - sinto-me no entanto no direito de pedir a todos os profissionais de todos os sistemas que tenham a sua hora de verdade, que façam a sua mea culpa ecológica, que ajudem, com um pouco de boa vontade, ao desbloqueamento do homem alienado. Que ajudem, em suma à Revolução Cultural, condição sine qua non da própria sobrevivência planetária.

Porque é isso - a sobrevivência planetária - o que está em jogo e em questão. Não se trata de pôr filtros nas chaminés, de lutar contra a poluição, de fazer lindas políticas do Ambiente para que tudo retombe na mesma ou pior. Quando falamos de Ecologia, é de Revolução que falamos.

- - - -

(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no semanário «Voz do Povo» (Lisboa) , 12 e 19/12/1978 e no semanário «Gazeta do Sul» (Montijo) ☼☼