1-2- <78-01-14-ie-bd> scan segunda-feira, 18 de novembro de 2002 – e logo no deserto norte-americano, esta síntese perfeita de todo o programa ecológico do realismo ecológico da frente ecológica

A RESISTÊNCIA DOS JOVENS AO ECOCÍDIO

O EXEMPLO NORTE-AMERICANO (*)

(*) Este texto de Afonso Cautela, transcrito no semanário «Região de Leiria», de 14 de Janeiro de 1978, deverá ter sido publicado originalmente no jornal «Frente Ecológica» (Paço de Arcos), em data a localizar

[ 14-1-1978] - Que vantagens e inconvenientes têm os automóveis particulares em relação com o transporte colectivo? Porque optar por vivendas de fim-de-semana em vez de se terem cidades construídas à medida humana? Porque ingerir medicamentos custosos, em vez de viver e trabalhar de tal forma que a saúde se não deteriore?

Vinte e um estudantes de liceus procedentes de 10 países fizeram estas perguntas e muitas outras mais, no decurso de um seminário internacional sobre « Os Jovens e o Meio Ambiente», organizado nos Estados Unidos de 25 de Abril a 5 de Maio de 1973 sob os auspícios da Unesco e da Comissão Nacional Norte-americana para a Unesco.

Esta reunião que se realizou sucessivamente em Washington, Lake Geneve (Wiscosin) e Chicago congregou jovens dos 16 aos 19 anos, procedentes da Polónia, Suécia, Iugoslávia, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Canadá, Dinamarca, República Federal Alemã, Países Baixos e Jamaica.

Embora hoje os estudos e trabalhos práticos sobre o meio ambiente formem parte dos programas de estudos secundários, os estudantes pensam que os professores dão um sentido demasiado restrito à noção do meio ambiente, a qual consideram simplesmente como a defesa da natureza e a luta contra a contaminação.

Pensam que a sua acção deve abarcar também os aspectos sociais e humanos do meio ambiente. As medidas tomadas para proteger a natureza, assinalam eles, estão intimamente unidas às que se referem à solução dos problemas económicos e sociais. Há que começar por replantar-se o crescimento económico e algumas das suas consequências: o desenvolvimento excessivo e o subdesenvolvimento.

Ao analisar os resultados da expansão nos países industrializados, os jovens estudantes chegaram à conclusão de que o crescimento opulento e anárquico produz mais neuróticos que hospitais, mais enfermos que curas, mais contaminadores que limpadores, em suma mais frustração que satisfação. Os responsáveis da produção, no seu entender, só se preocupam com o que é lucrativo. Desprezam a água pura, o sol, o silêncio, as árvores, o mar, a vida e os homens.

Contra esta atitude há que travar a primeira batalha. Por outro lado, o mundo excessivamente desenvolvido engendrou um modo de vida que, segundo julgam, mantém o resto do mundo em estado de subdesenvolvimento. Porque não existem suficientes recursos para todo o planeta poder adaptar essa maneira devoradora de produzir e de consumir.

Os milhões de proteínas desbaratados nos países ricos escasseiam na boca das crianças pobres, debilitadas pela subnutrição.

«Ao compreender os problemas ecológicos» - dizem estes estudantes - «sonhamos com outro modo de vida. Produzir menos, consumir , menos, viver diferentemente, trocar o produto nacional bruto pela felicidade nacional bruta».

 

RADICAIS E REFORMADORES

Como actuar na prática?

Esboçam-se duas tendências. Os reformistas consideram que há que lutar nas diferentes instituições (partidos políticos, sindicatos, escolas, organizações juvenis, etc.) para despertar a atenção da grande massa de simpatizantes do movimento ecológico para causas que ultrapassem o simples meio ambiente físico e transformar, paulatinamente, desde dentro, o sistema existente.

Para outros, impõe-se uma mudança mais radical. A maioria das instituições existentes, dizem, estão em crise; os partidos políticos e numerosos homens da ciência continuam a acreditar geralmente que o progresso técnico e o crescimento económico podem resolver as contradições das sociedades industriais.

Pois bem, nem um governo, nem uma sociedade multinacional poderá regularizar por sua conta a produção, já que isto significaria ir contra os seus próprios interesses. Propõem-se, pois, despertar a opinião pública para que esta se interrogue sobre a finalidade do desenvolvimento das sociedades industrializadas. A luta ecológica deve ser um meio que permita transformar a sociedade inteira. Propõem de imediato três acções:

- Estabelecer grupos de pressão e circuitos de informação paralelos, para contrabater a influência dos meios de informação, incluindo a publicidade e os diferentes tipos de condicionamento psicológico que formam ou deformam a opinião.

- Pôr à prova a boa vontade dos governos que afirmam ter em conta os problemas psicológicos, pedindo a redução das despesas militares. As somas assim economizadas seriam destinadas à protecção do meio ambiente, incluindo o melhoramento do nível de vida dos mais desfavorecidos.

- Não tolerar por mais tempo que parte da população activa - as massas rurais, os habitantes dos bairros de lata, os trabalhadores imigrados - viva dentro de países desenvolvidos, em estado de subdesenvolvimento, obrigados a realizar um trabalho esgotante que só lhes permite subsistir.

Os jovens estudantes examinaram também a função da escola frente aos problemas do ambiente. Todos, prescindindo da sua tendência individual, estão descontentes com a educação que recebem.

« O ensino tradicional» - dizem - «é demasiado conservador. A falta de liberdade e de iniciativa abafa-nos. A maioria dos nossos professores não estão preparados para cumprir a sua tarefa nas novas condições imperantes, ou são reticentes. Quando as aulas estiverem abertas à realidade do mundo exterior, quando os alunos saírem do seu ghetto, quando as diferentes disciplinas se completarem e integrarem, só então a educação conservará uma relação verdadeira com a vida». ,

(De «Frente Ecológica»)

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(*) Este texto de Afonso Cautela, transcrito no semanário «Região de Leiria», de 14 de Janeiro de 1978, deverá ter sido publicado originalmente no jornal «Frente Ecológica» (Paço de Arcos), em data a localizar ☼☻