<84-02-19- ie> ideia - quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2003-novo word  - <di-85> - mais uma carta à classe dirigente

AS CENTRAIS DE INTOXICAÇÃO

(unideologia)

Se me enganei, os jovens que me fritem em tribunal plenário e me condenem às penas do inferno.

19/2/1984 - Remexendo-se, nervosas, as grandes centrais de intoxicação internacional, difusoras da unideologia, atacam os dois flancos-chave:

Mas a defesa destes valores só é feita nos termos de uma ideologia idealista que não belisca nem põe em causa a essência do sistema que aquelas centrais de intoxicação servem.

Por isso é que são centrais, por isso é que existem, por isso é que intoxicam a opinião pública, por isso é que lançam as campanhas, os dias e os anos internacionais disto e daquilo: juventude, criança, paz, protecção da natureza, liberdade, zonas ribeirinhas, zonas húmidas, etc.

O Conselho da Europa acaba de proclamar o ano de 1985 como Ano Europeu do Património Rural.

É altura de interpelar , uma a uma, essas campanhas, as organizações internacionais que as promovem e as instituições de caridade que, nacional e internacionalmente, as apoiam: De que lado estais?

De que lado da luta que só tem dois lados, como diariamente nos gritam as centrais as centrais do Poder que diariamente dividem o mundo em dois, o dos bons e o dos maus?

À parte as zonas de «coexistência pacífica» - cooperação militar, espacial, nuclear, sísmico-nuclear, gasoduto - o grande palco e a plena luz não vão para a intercolaboração entre blocos, entre potências, mas para a bipolarização, o dualismo irredutível, o maniqueísmo e a guerra.

No seu quotidiano, as pessoas são confrontadas com uma opção bizarra: se não és pela lepra, és pela peste. As pessoas são provocadas com intimações violentas: «Se não és por mim , es contra mim», « se não és capitalista, és comunista» , «ou crês ou morres».

É a inquisição moderna das (duas) grandes potências.

Pois seja, então, viva a bipolaridade, só há preto e branco, não há nuances, nem dialéctica, nem subtilezas, nem terceira via: eu, jovem de 52 anos (a fazer em 19 de Fevereiro de 1984), em estado de conservação aceitável para ir à guerra e para o risco da luta em que me meti ou me meteram, pergunto a toda essa classe dirigente, a toda essa tecnocracia que centificamente apoia a guerra entre Bons e Maus, a toda essa burocracia de tecnoburrocratas triunfalistas, de que lado estais, quando discutis, estudais, subsidiais, lisonjeais a juventude?

De que lado estais, oh pais!

Eu, jovem de 52 anos, há 15 que digo, escrevo, proclamo - dentro do que as censuras mo têm permitido - de que lado estou.

Se me enganei, os jovens que me fritem em tribunal plenário e me condenem às penas do inferno.

Mas que os outros, que sistematicamente puz em causa pondo-me a mim em permanente risco de desemprego, os outros que me tratam de través e me toleram até que me possam chutar, os outros que me chularam ideias e agora são negociantes das propostas de que então me diziam o subversivo agente, os outros que me classificaram na marginalidade do radicalismo e na sem esperança dos sem partido , dos sem enquadramento, dos sem filiação, dos sem uniforme, pois os outros que se descosam também e digam de que lado estão : se do lado do Diabo que serve Deus ( é onde eu estou) ou se do lado de Deus que serve o Diabo (é onde me parece que tendes estado , oh digníssimos representantes da classe dirigente) .