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REFLEXÕES SOBRE A CRISE :

O «EFEITO BOOMERANG»

A ilusão do «átomo pacífico» : com a ciência de ponta, toda a tecnologia se torna bélica

Lisboa, 11/12/1990  - Nos laboratórios da História é que a Ecologia nasceu ( e esta é a razão principal que torna a Ecologia Humana uma ciência proibida, clandestina, que se tem vergonha de identificar na sua triste genealogia.)

Tudo aquilo que Miguel Sousa Tavares, advogado e jornalista, indica muito justamente como sendo o comportamento «intolerável» do Iraque para com o Ocidente laico, ateu e democrata (jornal « Público», 10/12/1990) - a chantagem química, a chantagem biológica, a chantagem petrolífera, a chantagem política e económica, aprendeu ele, Hussein, com os bons mestres do Ocidente, onde a chantagem, como o M.S.T. sabe, é religião, na vida internacional e até na vida quotidiana do nosso «modus vivendi».

A chantagem nuclear, durante décadas, não manteve em confronto, à beira do holocausto, duas superpotências nucleares? E o argumento podia ser o mesmo: 20 mil mortos agora ou 20 milhões daqui a alguns anos?

O que o sistema reclama, sempre, é mortos e deles se alimenta: razão por que não nos devemos admirar agora de tantos nos serem exigidos. Acontece que a ciência hoje nasce dos mortos.

O que se verifica na actual situação centrada no Golfo Pérsico e que particularmente irrita alguns observadores - é apenas o agudizar das contradições do sistema a que se poderá chamar de consumo, capitalista, economia de mercado, imperialismo industrial antiecológico, etc. Ao lado deste fanatismo, o fundamentalismo islâmico é uma brincadeira de crianças... Se o Ocidente reparar que a chantagem, que sempre utilizou como norma, princípio, arma e religião, agora lhe dá na cara, é apenas o típico «efeito de boomerang» que caracteriza o relacionamento ecológico dos sistemas e das partes dentro do sistema.

O que a engrenagem do consumo tem é uma péssima memória: e quando chegam os efeitos das causas que ela própria engendrou (ou das armas que ela própria vendeu ao Iraque), os observadores, que fazem o discurso dominante nos média, espantam-se!

O Ocidente procura outra vez desatascar-se das crises onde periódica e estruturalmente tem que mergulhar, para se continuar reproduzindo. Com os avisos dados pelos dois choques petrolíferos, um em 1973 e outro no princípio dos anos 80, o sistema reincidiu e continuou a debitar o discurso sonolento de que as «energias alternativas» ao petróleo não eram para já, não eram rentáveis, eram só para divertir esses rapazes folclóricos ditos ecologistas, etc.

Em quase vinte anos - perguntam alguns - o que se progrediu em matéria de ecoenergias alternativas? Quer ou não o Ocidente capitalista continuar na toxicodependência do petróleo e portanto sujeito, submetido à lógica da chantagem? Se temos o consumismo que temos, porque nos admiramos da chantagem como arma de guerra? Ou será menos limpa que a arma biológica, química e nuclear?

A próxima guerra será «ecológica» entre aspas no duplo e total sentido da palavra: o que não é talvez por acaso, porque a ciência hoje nasce principalmente da guerra e a principal guerra se deve, fundamentalmente, a um sistema económico que tem como dominante preponderante a sua impiedosa atitude contra os ecossistemas, custe o que custar e apenas para fazer andar os mecanismos do lucro e a engrenagem da produção?

As armas biológicas, por exemplo, e a respectiva chantagem que Hussein está fazendo com elas, são ou não uma típica invenção do Ocidente laico, ateu e democrático? E as armas químicas? Não foi o Vietname o maior laboratório de Ecologia Humana, depois de Hiroxima, exactamente pela guerra química ( o célebre agente laranja) que deixou sequelas eternas no corpo do povo vietnamita?

Com tão bons mestres, porque não havia Hussein de aprender?

[ Este texto talvez valha **** porque nele se recombinam vectores fundamentais das intuições ac de Ecologia Humana: e ecologia não é uma ciência académica, obtida na calma dos laboratórios mas uma ciência que se impôs sobre uma massa impressionante de cadáveres e vítimas: e a cada Hiroxima, a cada Vietname, a cada Seveso, a cada Bhopal, a cada Chernobyl, a cada Bâle, - ver outras datas da era industrial - a guerra confunde-se com a paz e a paz com a guerra, pelo menos quanto a número de mortos.

[O curioso desta situação é que a retórica do «átomo pacífico», tal como a da «química pacífica», tal como a da «engenharia biológica pacífica», etc., deixou de fazer sentido e cada vez a palavra «pacífico» é menos adequada para designar uma ciência e uma tecnologia - «braço armado da ciência» - que estruturalmente nada têm de pacífico.

[Também o efeito «boomerang» se constata neste apontamento como uma lei fundamental da Ecologia Humana, o que já tem sido, em outras circunstâncias, por mim sublinhado.]☺☻