1-2- <70-01-15-di> terça-feira, 10 de Dezembro de 2002-scan

EXPLOSÃO DEMOGRÁFICA

O DECISIVO DESAFIO(*)

(*) Este texto de Afonso Cautela terá sido publicado no jornal «Diário do Alentejo», Beja, em data a identificar

15-1-1970 - A explosão demográfica, considerada por alguns autores mais ou menos neomaltusianos e pessimistas o factor determinante do subdesenvolvimento nos próximos anos, é, pela sua própria ambiguidade, a razão de maior esperança para os antimaltusianos optimistas.

Se há mais bocas a sustentar, há também mais braços para construir e cabeças para pensar. O problema reside, pois, na velocidade com que a humanidade privilegiada souber emancipar e humanizar a humanidade pobre e diminuída do Terceiro Mundo.

Se não fossem os atrasos de vida de todos conhecidos - a daninha exploração de alguns pontos do globo por cupidez de matérias primas ou de pontos militarmente estratégicos, onde a guerra aberta ou velada substitui os programas da reforma agrária e educação permanente, se não fossem os egoísmos nacionais e as possessivas dominações dos mais fortes sobre os mais fracos, se não fosse a discriminação e o "apartheid", todos compreendem que a explosão demográfica significaria um aumento de humanidade ( de potencialidades criadoras} e consequentemente as multiplicações das fontes de riqueza, quer naturais, quer as que da espécie são próprias.

Apagado e cheio de fome, com carências relativas e absolutas, de quantidade e qualidade, de vitamina e de proteína, reduzido à condição de objecto inerte, impossibilitado de crescer fisiológica e socialmente, em vez do dínamo criador que pode ser, o ente humano vegeta na passividade, no conformismo, na doença e na desgraça, na estéril e abúlica resignação à sorte. Para construir o futuro, esse infinito, precisará o homem submetido de libertar-se das necessidades básicas e das absurdas explorações a que se encontra sujeito .

Então, sim, o teste definitivo proposto à humanidade pelo seu próprio crescimento em número - a explosão populacional - dará os primeiros resultados positivos no âmbito da qualidade.

Nenhuma outra circunstância - o problema dos problemas, como foi considerado - põe tão severo, urgente e decisivo desafio à humanidade, nesta década que agora se inicia: essencialmente um problema de rapidez e coordenação de esforços, de recíproca e simultânea participação dos temas e realidades envolventes, o ataque frontal à vaga endémica da fome é, simultaneamente, um problema de braços e de inteligência, de base e de topo, de infra e de superestrutura, de economia e de educação, de política e de esperança, de sociologia e de mentalidade prospectiva.

Um homem novo é convidado a nascer - para que o problema obtenha solução no prazo exacto em que a solução deixará de o ser, para que a vontade comparticipante de todos os responsáveis obtenha êxito. Se falhar nesta corrida contra-relógio, neste gigantesco teste, pode afirmar-se com inteira propriedade que a humanidade falhou e que o beco sem saída das previsões apocalípticas é de facto um facto.

Se os computadores começam a ficar ao alcance da vida quotidiana, é licito pensar que eles, em matéria de elaboração de programas, de planeamento, de inteligência e orientação da acção a pôr em prática, poderiam acompanhar o ritmo vertiginoso imprimido à história pela explosão demográfica. Se a História vai acelerar-se como nunca até agora aconteceu, nos próximos 10, 20 ou 30 anos, o homem já dispõe (teoricamente) dos instrumentos técnicos e tecnológicos susceptíveis de acompanhar essa aceleração e até de a ultrapassar.

O passo a dar, está portanto meio dado; o outro meio consiste no progresso político, económico e social que torne aplicável na prática a teoria, a técnica, a ciência e a tecnologia dos computadores - realidade esta que depende, em última instância, da indústria leader e das relações de propriedade constituídas. Se com um fim em si próprias, na busca do que mais rende e não do que é mais necessário, conduzindo à catástrofe; se com um fim fora de si próprias, procurando não o que rende mais mas o que é aos homens mais necessário, conduzindo à salvação.

Para se salvar, com efeito, a maioria da. humanidade terá de impedir que a outra parte dela embora populacional e geograficamente em minoria, prossiga uma política desintegrante de mera exploração: emancipados os grupos humanos e dado a todos não só o direito mas também o dever do trabalho - a cada um conforme as suas necessidades, mas também conforme as suas possibilidades - o aumento de população em flecha que alguns classificam de aterrorizante, será então o mais radioso sol da esperança que já nasceu sobre o planeta.

Assim queiram os bem alimentados substituir rápida e eficazmente uma mentalidade retrospectiva e paralisante, estática e conservadora, historicista, egolátrica, por uma ideia prospectiva e humanista da História.

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(*) Este texto de Afonso Cautela terá sido publicado no jornal «Diário do Alentejo», Beja, em data a identificar ♦♦♦