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A DEMAGOGIA

NO DISCURSO SOBRE QUALIDADE DE VIDA

29/3/1991 - Demagogia são os anúncios do Sanatogen -- Fracasso não é comigo -- que ocultam ou ignoram o terror dos exames e os métodos anticulturais das escolas com um optimismo bacoco que, à laia de isca, só pertence aos que tiverem a graça de comprarem o produto.

Nunca se separam. Em matéria política ou moral, onde grassem as contradições, a demagogia faz carreira, pois consiste em aparentar o que não há quando as circunstâncias forçam a isso.

Exemplo: numa sociedade dominada por qualquer oligarquia, é evidente que os exploradores não promovem o interesse dos explorados, o que seria contraditório. Mas quando os acontecimentos forçam a denúncia do facto, a casta dirigente é obrigada a assumir atitudes e a tomar resoluções para se aguentar no poder. Então o reformismo. Então a hipocrisia. Então a demagogia, ou promessas que se não cumprem. Forçada por erupções de violência, a corrupção tem que falar nos interesses do trabalho e na reforma das estruturas: contratos colectivos de trabalho, bairros económicos, obras públicas, assistência, obras sociais, etc.

Há sempre um pequeno «bem» (benefício) que se hipertrofia e propagandeia para ocultar os grandes males e os crimes de base que se cometem.

Quanto mais reformismo, mais hipocrisia. E quanto mais hipocrisia mais demagogia.

EXEMPLOS DE DISCURSO DEMAGÓGICO

Alguns títulos de jornais portugueses são verdadeiros paradigmas de hipocrisia-demagogia-reformismo. Como por exemplo:

LUGARES-COMUNS REFORMISTAS PARA IDEOLOGIA REFORMISTA:

Não será este discurso que torna inevitável e imprescindível o radicalismo?

A terminologia denuncia a ideologia. Sempre. E no caso dos lugares-comuns reformistas, com abundância de provas. A terminologia dos telegramas oriundos de agências é muito adequada. Vejamos exemplos:

«Bombardeamentos criminosos nos diques do Vietname»

Pergunta: Mas haverá bombardeamentos que não são criminosos?

*

«Desumanas sevícias infligidas às vítimas»

Pergunta: Mas haverá sevícias que não sejam desumanas?

*

«Pavorosos incêndios no Vale do Vouga»

Pergunta: Mas haverá incêndios que não sejam pavorosos? Haverá incêndios agradáveis?

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«Senhorio desumano»

Mas haverá senhorios humanos?

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«Morte súbita de motorista»

Pergunta: Mas haverá morte que não seja súbita? Haverá morte a prazo? (por acaso até há: as mortes por enxerto-transplantação são a prazo: logo o adjectivo «súbita» começa a ser adequado quando aplicado à morte de rotina, de que há cada vez mais e mais lentas.