1-2 - <ciência-5-cc> = contra a ciência – crítica da ciência - os dossiês do silêncio – contra a ciência ordinária – inédito 1989 - Sexta-feira, 25 de Julho de 2003

A METÁFORA

EM CIÊNCIAS HUMANAS

28/11/1989 - É sempre ingente e sobre-humana a tarefa que se exige a cada investigador, mesmo na área particular de uma ciência entre mil outras ciências, às quais conduziu a divisão do conhecimento analítico.

Por isso o método do investigador - encurralado pelo princípio da infinita especialização e da continua parcelarização de matérias - terá que ser inteligentemente reinventado, adequando-se a cada situação, sem perder o norte da síntese e da visão global. Do poço sem fundo da análise nunca mais se sai, especialmente na área das ciências ditas humanas e sociais.

Se o investigador quer avançar (e não cair) deve fazê-lo por aproximações e as teorias deviam, em princípio, ser apenas isso - aproximações provisórias de uma verdade nunca alcançável, mas apenas contornável. Num campo em que nada pode ser definitivo, o investigador devia aprender humildemente a defender-se do provisório.

Antes de mais, treinar a intuição - porque a intuição também se treina - e usá-la mais vezes, em vez de autosuficientemente repetir a cassete pseudoracionalista que condena a intuição e o seu teorizador Henri Bergson.

Quem estabeleceu uma hierarquia de faculdades humanas foi a própria ordem científica, que devia começar por se pôr ela própria em causa quando age assim tão contraditoriamente com o que proclama. Nessa hierarquia de faculdades, e racisticamente, estabelece-se que o instinto ou /e a intuição ficam a um nível "inferior", abaixo da inteligência ou do raciocínio, faculdades que seriam mais nobres... Muito gosta a ciência dita objectiva de estabelecer classes e de enxamear o seu objectivo discurso de adjectivos como "inferior", "primitivo", "subdesenvolvido", "pobre", "baixo", "elementar", colocando-se ela, ou o que ela adopta, no topo da escala, o "melhor", o "superior", o "complexo", o "rico", o ... Acompanha-se o discurso das ciências humanas de conotações sempre pejorativas para um lado (as classes "baixas", como eles dizem) e de conotações exaltantes para outro (as classes "altas", claro).

O racismo é intrínseco, pelos vistos, à ordem facultativa e universitária estabelecida, revela-se no mais ínfimo pormenor no discurso que de lá emana. O racismo é o seu modo de funcionamento e de se comportar, de acordo com o "darwinismo social" que informa toda a ideologia do sistema ( Jacques Ruffié).

Assente, pelo investigador livre, de que intuição e/ ou instinto são tão superiores ou inferiores como inteligência, raciocínio, imaginação, etc, aí estão mais dois instrumentos de trabalho para avançar no caminho da pesquisa.

Outro caminho da pesquisa é o da "metaforização". Pela metáfora, posso concluir visões globais da realidade que a análise me dá.

Ao tomar a palavra "deserto", por exemplo, como metáfora, eu subentendo todas as relações do meio ambiente com o comportamento humano capazes de ser submetidas como as relações do escorpião ou qualquer outro animal típico do deserto, dessa geoformação que é a "zona árida".

Dir-se-ia, por exemplo, que toda a obra de Samuel Becket gira à volta dessa metáfora.

Vejo eu, entretanto, um senhor arquitecto muito irado contra a metáfora da "cidade como organismo", mas depois, levando metade do livro a pedir desculpa, acaba por adoptar a metáfora e por chamar ao livro "A Doença da Cidade" (Livros Horizonte, Lisboa, ?).

A metáfora orgânica , aliás, tem que ser recuperada, sabendo o investigador livre muito bem que a "chaga social" e outras metáforas correspondem a uma época e/ou mentalidade hoje ultrapassada, se é que Zola e a sua "crónica social" está ultrapassado.

Com essa ou outra metáfora orgânica, não é ao tempo de Zola que se pretende voltar, mas apontar para a metáfora "doença" (como sintomatologia de uma civilização que se caracteriza exactamente por fabricar doenças típicas e especificas).

Como não há-de , hoje, o cancro ser metáfora, se estamos em plena Civilização do Cancro?

Se a metáfora me fizer mais claras as situações que a ciência analítica obscureceu (com toneladas de estatísticas ou nomenclaturas bizantinas) não vou pedir, com certeza, ao arquitecto J.P. Martins Barata, nem ao arquitecto Vasco de Melo, nem à arquitecta Helena Roseta, nem ao arquitecto agrimensor Ribeiro Telles, que me autorize a usar a metáfora como método de investigação que me ajude a compreender (a tornar inteligível ou inteligente) certos mecanismos como a cidade de Lisboa, já ingovernáveis pelo limite de absurdo a que chegaram.

FELICIDADE NACIONAL BRUTA

Quando se abre um livro de ciência, compreende-se como é árido e desalmado o mundo dos especialistas que tem tão árida nomenclatura no coração.

Como tem necessidade de repousar num espaço de linguagem poética fornecida pelo mundo farmacêutico em forma de pílula, ampola ou supositório.

As estatísticas mentem quando põem a juventude à frente no consumo de estupefacientes, já que é a classe científica quem, por natureza, consumirá mais disso.

Uma pessoa humana não pode resistir anos e anos a um quadro verbal inóspito, verdadeiro deserto de emoções. Na primeira altura, o técnico vinga-se. Mas, depois, a classe dirigente vai dizer que é a juventude a consumir psicotrópicos. E fala em usos "orais" dos toxico-fármacos, sabendo que "oral" sintoniza conotações mais profundas.

A falta de raízes e de identidade histórica já foi apontada por psiquiatras como uma das causas do vazio norte-americano e consequentemente do índice no consumo de drogas.