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<cee-2><80-01-12-ie> os dossiês do silêncio – os mitos do crescimento – os mitos do progresso – inédito ac de 1980 – mein kampf -A EUROPA
OU COMO SE REPLANIFICA
A PILHAGEM DOS RECURSOS PORTUGUESES
12/1/1980 -
Os discursos de apologia à C.E.E. começam todos, explicita ou implicitamente, com uma ameaça velada, com um aviso solene à assistência: "Ou crês, ou morres..."
Basta o silêncio cúmplice que entre gente engravatada se costuma instalar quando alguém fala "dos passos irreversíveis que Portugal já deu na integração do Mercado Comum", basta esse silêncio para ficar tudo dito.
São os chamados "silêncios eloquentes". Calar qualquer possível ou eventual recalcitrante , por enquanto, basta um olhar.
Tudo isto, claro, ao abrigo da "liberdade de expressão de pensamento" que o 25 de Abril (nos) trouxe (a quem?).
Tudo isto, claro, ao abrigo da democracia que será consolidada com a entrada do Mercado Comum em território português.
A democracia consolida-se, principalmente, fechando à chave a boca dos que teriam, de certeza, mil alternativas muito mais viáveis e patrióticas a propor do que a rendição pura e simples aos Átilas do Mercado.
"CREIO PORQUE É ABSURDO" (Santo Agostinho)
Como é que as cúpulas dos aparelhos , meia dúzia de tecnocratas, ao fim e ao cabo, meia dúzia de boas grandes famílias, conseguem convencer ou julgar que convencem 9 milhões de portugueses?
Através de um discurso sabiamente martelado e reproduzido até ao infinito , por todos os órgãos de informação, essa classe convence-se de que convenceu o povo português. Convence-se de que convenceu o povo português de que o interesse dele (nosso) é o que essa classe defende.
MAIORIA TEM SEMPRE RAZÃO
Tão pouco o velho argumento da democracia formal - "a verdade de uma mentira mede-se pelo acordo que lhe der a maioria" - , argumento com que é costume calar a razão das minorias, tão pouco esse colhe. Porque, neste caso, a maioria até nem está de acordo. E não está porque ninguém - a não ser as cúpulas e volantes dos aparelhos - quer mais desgraça, mais desemprego, mais poluição, mais sines e estarrejas, mais inflação, mais ditadura económica, mais colonização tecnológica, mais dependência energética, mais arbitrariedades e discriminações.
Dominações chegaram as que tivemos através da História.
A situação dita eufemisticamente de "integração europeia" é evidentemente de "colonização europeia". E nenhum português quer sem mais colonizado.
Se eles gritam tanto, é porque a força da razão não os assiste. E se têm de utilizar páginas inteiras de grandes jornais com títulos CEE, é porque sentem a necessidade de "convencer" quem não está nem estará convencido.
Conta a esmagadora maioria, ao menos, com a razão. E com a própria realidade que , com suas contradições, acabará por afogar os próprios propagandistas na diarreia que produziram.
OS BRUTOS E OS INTELIGENTES NA CEE
Fontes especializadas da CEE, como a "Documentation Européenne", não se cansam de nos dizer que somos, dos três pretendentes a entrar lá, "o exemplo mais flagrante de diferença dos níveis de desenvolvimento".
Quer dizer: somos, segundo a medida deles, uma desgraça e uma pobreza. Quanto a isto, todos (os partidos) de acordo. Quanto à nossa miséria, unanimidade e consenso.
Se a unidade de medida adoptada não fosse o rendimento nacional bruto mas o número de glóbulos vermelhos que (ainda) tem o povo português relativamente aos anémicos e escrofulosos europeus, talvez não ficássemos em posição tão humilhante.
Se a unidade de medida fosse o número de cancros per capita, também (graças aos consumos cancerígenos que já temos) a nossa posição não nos envergonharia , com certeza, no âmbito do mercado comum.
Se a unidade de medida fosse o número de assaltos a bancos por hora, também não ficaríamos nada mal vistos.
Enfim, isto de nos andarem a medir da cabeça aos pés tem as suas vantagens para que nos sirvam os barretes que nos querem enfiar, mas também tem algo de insólito e surrealista.
Eles não desarmam, nem descansam.
"VINTE ANOS SEPARAM PORTUGAL DOS PAÍSES DA CEE" podia ler-se nos jornais de 29 de Agosto de 1979.
António Gouveia Portela , professor do Instituto Superior Técnico de Lisboa, acaba de o descobrir:
" A distância entre Portugal e os países da CEE é de cerca de 20 a 25 anos. A CEE cresce a 3 por cento ao ano e países mais atrazados da CEE crescem 4 por cento, medindo estes crescimentos pela grandeza do GNP /capita. A um ritmo que esteja compreendido entre 7-9 por cento ao ano, Portugal levava cerca de 8 anos a atingir os países hoje com 2 a 2,4 vezes GNP capita nacional e 6 anos para um pais com 1,6 vezes o nosso GNP/ capita,"
Puxa vida, que ainda somos bons nalguma coisa!
CONSELHO PERTINENTE
O presidente da Comissão para a Integração Europeia, Pires Miranda afirmou ( 14. 12. 79) que "os empresários portugueses terão de ser imaginativos. "
O conselho é pertinente, porquanto ele é o primeiro a dar o exemplo da mais poética inventividade.
A moralidade (e a criatividade) quando bem entendida, deva começar por nós próprios.
Amen.