1-3 - <apocalipse-1-na> notícias do apocalipse - antologia de inéditos – texto tipo manifesto – eco-realismo – temas de fundo

29-12-1979

CONTRA A SOCIEDADE DE CONSUMO

EM DEFESA DO TERCEIRO MUNDO

Jerusalem, - A guerra entre Gog e Magog e a vinda dos tempos messiânicos estão iminentes, segundo três grandes rabinos que tiveram recentemente um mesmo sonho do apocalipse, soube-se em Jerusalem.

Trata-se dos rabinos Mordekhay Sharabi, de Jerusalem, do rabino Israel Abuhatsira, de origem marroquina e do rabino de Klauzimburg nos Estados Unidos.

A notícia deste sonho premonitório espalhou-se como um rastilho de pólvora nos meios ortodoxos de Israel e nas escolas de Hassidim( France Press, 25.12.1979).

 

29/12/1979 - Para quem analise a crise actual do Mundo com olho clínico, é possível um diagnóstico (prognóstico) relativamente correcto.

O que alguns, mais dados à profecia e à mística, chamam "fim dos tempos" será, para o observador mais positivista, apenas uma "doença incurável", digamos "uma forma de tumor maligno".

A diferença em relação a outras épocas menos apocalípticas reside na distância que vai de uma constipação ao cancro. Doenças várias sempre a Terra as sofreu, mas há muitos hoje a pensar que a doença, desta feita, é incurável. Ou, degenerativamente, para lá caminha.

Neste quadro patológico, as poluições significariam um sintoma. Mas a doença, olhada na sua múltipla e profunda causalidade, encontra-se mais nas raízes da sociedade e não pode nem deve confundir-se com os sintomas aparentes.

Quando a cárie aparece nas crianças, por exemplo, como reage a indústria médica e como deveria reagir uma terapêutica que verdadeiramente o fosse? Perante a cárie, qualquer olho clínico deveria logicamente recomendar "mudança do regime alimentar" da vítima, já que a cárie se apresenta como doença de causalidade óbvia e, portanto, de diagnóstico fácil.

Mas não. Perante a evidência, o sistema toma duas medidas totalmente alheias ao diagnóstico correcto: de um lado, promove uma campanha para a fluorização da água pública de beber, o que irà no mínimo e para já, provocar afecções renais na população consumidora (isto garantirá um contingente industrial de novos doentes); por outro lado, o sistema celebra mais um Ano Internacional da Criança, com sinos a repicar, de manhã à noite, em louvor do Menino-Deus, do Menino-Homem.

Menino que o sistema, com o PNF (Plano Nacional de Fluorização), fará a breve prazo um (quem sabe se incurável) doente renal, a pretexto de lhe ter evitado a cárie (que não evita coisa nenhuma, enquanto lhe der, nos Natais e nem só, a comer, toneladas de açúcar).

Mas o sistema funciona e desde que o supermercado continue a vender - chupas chupas ou medicamentos - que importa o resto? Embalados em celofane, toda a verde comoção do Natal nos induz à ternura de trincar quantas maçãs envenenadas eles quiserem. Quer dizer: cancro embalado em celofane e cartão canelado os 365 dias do Ano Internacional da Criança ou de qualquer outra coisa que enternecidamente queremos.

Por limitações físicas (ecológicas) acontece que esta e outras escaladas, contrasensos, abusos, superconsumos e pilhagens de recursos estão , com o fim deste, chegando também e necessariamente ao fim...

"Fim dos tempos" tem portanto um sentido experimental muito preciso: na febre de consumir, os países ricos (ditos industrializados) atacaram e sugaram o Terceiro Mundo. Dezenas de Natais foram celebrados, portanto, com a morte de milhares de crianças de todo o Terceiro Mundo à fome.

Os pinheiros arrancados ao seu habitat e vendidos na Avenida de Roma para enfeitar a casa do citadino são apenas um episódio anedótico de um processo mais vasto: a pilhagem das Florestas do Terceiro Mundo (Portugal incluído) pelo ricos que continuam a precisar de papel como os esfomeados de pão para a boca.

Tal como o moralista que dá a benção urbi et orbi com a esquerda enquanto com a direita segura o cacetete, tal como o ideólogo que grita revolução sabendo que está com a sua prática partidária a trabalhar para que a Revolução seja cada vez mais uma utopia no horizonte dos humilhados o ofendidos; tal como esses outros dois, o tecnocrata é na sociedade do desperdício o terceiro criador de fantasmas, mitos, ideais: é por definição o idealista ou irrealista, o que se agita permanentemente num caldo de pré-conceitos e pré-juízos, não ouvindo o mundo e a natureza que, doentes, choram de uma doença incurável

Marx chamou alienação ao fenómeno comum a estes três tipos de guias sociais: alienados, de facto, no sentido mais filosófico da palavra. Em má posição, qualquer deles, para chamar fanático ao Khomeiny das barbas. Para fanático, fanático e meio - diria o povo.

Ignorar a natureza como fez a chamada "civilização europeia"(a tal que está em crise ou no seu «fim dos tempos»), já era de alienado. Mas hostilizá-la e violentá-la como fez esse idealismo fantasmagórico chamado revolução industrial" - agora também nas vascas da agonia, debatendo-se em excrementos, - é de louco.

Daí que este "fim dos tempos" seja, de facto, uma lamacenta agitação mas tenha para o psiquiatra um sentido muito preciso e técnico no quadro da psicopatologia: paranóia poderá ser o sindroma da Cochinchina menos pecaminoso.

Para doente tão incurável, só uma esperança: que o psiquiatra, para não fugir à regra e como habitualmente entre os seus, se tenha também desta feita enganado no diagnóstico. Nesse caso, os rabinos teriam mesmo sonhado que sonharam. E talvez o estado da Terra não seja afinal para tantos receios, nem tão irreversível como os sintomas mais gritantes fazem crer aos mais atentos e sensíveis.

 

Face à "doença incurável" da Terra, soam pelo menos a oco as previsões que a tecno-futurologia faz para a década de 80.

Fazer planos de grande futuro, alguém com uma doença, além de incurával vergonhosa, é grotesco

No entanto, imperturbável, surdo, o tecnocrata do Planeamento Económico não faz outra coisa, agarrado ao tacho, do que apontar as metas da morte em que a sua mente de utopista continua febrilmente empenhada: mais energia, mais produção, mais consumo, mais desastres, mais aviões despenhados, mais cargueiros e petroleiros derramados, mais poços, mais cancros, mais hospitais, mais população, mais bairros da lata, mais indústrias, mais centrais nucleares, mais radiografias, mais detergentes, mais rios-cloaca, mais mercúrio, mais anos internacionais da criança, mais desertos, mais secas e chuvas diluvianas, mais incêndios, mais mortos nas estradas, mais automóveis, mais gasolina, mais cara, mais papel, mais lixo, mais desperdício, mais, mais...

Como se não houvesse crise (ecológica). Como se o tumor não cheirasse mal (poluição). Como se o Mundo estivesse apenas com uma passageira e ligeira gripe.

Fim dos tempos? Pelo menos o fim desta pândega, desta orgia, desta Pilhagem Colossal dos evoluídos Países Ricos ditos industriais contra o Terceiro Mundo (Portugal incluído) .

Para alguns ecologistas, a oposição entre os países do Norte (Ricos ou industrializados) e os do Sul do Globo (Pobres ou subdesenvolvidos) aparece como a contradição fundamental da qual derivam todas as outras. Inclusive a "luta de classes", no plano interno dos países. Enquanto uma certa vulgata marxista continua a falar desta "luta de classes", vendo na oposição patronato-classe operária a principal antinomia, de onde derivam todas as outras, para alguns ecologistas a luta hoje é, antes de mais, a que os países "desenvolvidos" movem contra os recursos naturais e humanos dos países países pobres, o Terceiro Mundo.

Aos que pilham o Terceira Mundo e constroem a prosperidade dos seus próprios consumos sobre a Fome, a Miséria, a Doença e a Morte dos milhões de "condenados da terra", é fácil dizer que adoptam políticas de limpeza do ambiente e de protecção à Natureza.

Mas é destes ambientalistas que, principalmente, nos devemos defender, dada a mistificação básica de que partem. A crise ecológica a nível global de todo o planeta é fundamentalmente esta guerra entre o Norte destruidor do Meio Ambiente e o Sul sua vítima. Todo o ambientalista que iluda ou mistifique esta contradição real e fundamental, será um zeloso servidor do sistema do desperdício e da pilhagem. Mas não tem nada a ver com a noção universal de Ecologia, à escala planetária, em que deverá ser correctamente colocada.

Calando o Genocídio (da Fome) e o Etnocídio (das culturas originais do Mundo), as grandes potências , principalmente atómicas, continuam praticando as suas hipócritas políticas do Ambiente.

Dialéctica será a coerência ou consciência suficientemente crítica e que possa, portanto, situar-se para lá da demagogia de uns e da hipocrisia de outros, muito ocupados a festejar o Ano Internacional da Criança enquanto promovem, por toda a parte, o terror sísmico-nuclear dos rebentamentos subterrâneos que provocam vagas da terremotos. Por exemplo. Embora o Genocídio não se fique por aqui.

Dialéctica e revolução cultural são duas palavras que o realismo ecológico tenta salvar da mistificação em que ideólogos da tecnocracia as mergulharam.

Recapitulando: o genocídio de fundo - a Fome endémica que os colonialismos e neo-colonialismos continuam interessados em manter e prorrogar - não deve fazer esquecer , portanto, os sismos provocados por bombas subterrâneas, os furacões desviados das costas americanas para atingirem as ilhas da América Central e das Antilhas, as secas e chuvas diluvianas igualmente provocadas por experiências com climas (da OMM e seus agentes), a esterilização de mulheres na América Latina a pretexto de assistência médica - eis apenas mais alguns exemplos dessa "guerra" a que alguns chamam "total ou ecológica".

Defender aves e cetáceos é a pia missão que alguns ambientalistas se conferem. Defender crianças e povos do Terceiro Mundo (Portugal incluído) ameaçados de extermínio pela devoradora pilhagem que os industrializados continuam efectuando para garantir seus níveis de consumo, é outra maneira, menos ortodoxa mas mais realista, de ser ecologista e defensor da Natureza.☼☻