<acesso-1> ele explica-se – inédito de 1989 – balanço pessoal em 1989 – texto de 5 estrelas

SERÁ A PROVA GERAL DE ACESSO

UMA PROVA INICIÁTICA?

O QUE TERÁ A VER CULTURA COM ECOLOGIA?(*)

Lisboa, 7 de Dezembro de 1989 - Vocês são um clube de Ecologia e eu encontro-me aqui para alguns minutos de amena conversa convosco.

Primeiro, agradeço terem-se lembrado do meu nome, mas, principalmente, agradeço a ideia de terem convidado o Prof. Agostinho da Silva, o que me dá a oportunidade, que há muito desejava, de estar perto dele e de lhe falar.

Mas se vamos falar de ecologia, sinto-me na obrigação de dizer o que entendo por isso e o que ponho debaixo dessa palavra que, como vocês sabem, serve hoje para tudo, até para propaganda eleitoral dos políticos que andam, coitados, com penúria de votos para serem eleitos.

Não sou ecologista nem ecólogo académico, nem qualquer coisa parecida com isso, sou apenas, aos 55 anos de idade e 23 de jornalista, uma pessoa que se interessa pelos problemas ecológicos deste País e deste Planeta, por me parecer que por eles passa hoje tudo o que seja futuro.

Talvez vocês, jovens, não saibam, mas ainda não há muitos anos, era pura heresia falar das questões ecológicas e altamente perigoso para a nossa reputação de boas pessoas, não falando já do perigo que representava para o êxito escolar e a carreira profissional , alguém, como estudante, atrever-se a ter preocupações de índole ecológica. Levava logo com o labéu de "inimigo do progresso" e amochava. Seria impensável, ainda há uns 10 anos, fazer um clube de ecologia na escola como o vosso.

Se querem que vos diga, afinal, está tudo ligado e, pelo menos para mim, Ecologia tem que ver com isso tudo: o nosso conformismo ou inconformismo com o status quo, com a lógica do sistema instalado; ecologia tem, portanto, a ver com a minha antiga aversão às matérias curriculares que na escola era obrigado a decorar e que nada me diziam da vida e das pessoas Ecologia tem a ver com o meu ódio aos exames e a todo o tipo de selecção darwiniana das pessoas, feita segundo critérios racistas de melhores e piores. Ecologia, no meu modesto entender, tem que ver com a instituição escolar como microscosmos que é das outras instituições repressivas, às quais devemos obediência pela vida fora. Ecologia tem que ver com uma concepção analítica, desumanista da cultura e da ciência, levada ao extremo delírio da hiperespecialização, que é a negação de todo o conhecimento, de toda a sabedoria. Ecologia , finalmente, tem que ver com toda a engrenagem e com a minha incurável incompatibilidade com ela, na medida em que tritura e aliena as pessoas, única entidade que, a meu ver, merece respeito.

Por exemplo: nunca tive muita memória para encornar manuais de várias e desvairadas ciências particulares. E com menos memória ainda fiquei quando, por razões de saúde que a medicina nunca soube resolver, os médicos me encharcaram de um medicamento chamado Librium e outros da mesma família.

Resultado ecológico de mais esta tirania medicamentosa : fiquei ainda com menos memória do que já tinha, porque o Librium, além de estragar o fígado, destroi as células cerebrais, mas fiquei ainda com mais raiva e revolta contra este sistema de conhecimento que não consegue resolver uma gripe e que tem apenas medicamentos tóxicos para responder às necessidades de reequilíbrio orgânico das pessoas.

Se já tinha, portanto, um inimigo principal - a escola como instituição essencialmente reprodutora do sistema - ganhei outro inimigo-principal : a Medicina e os medicamentos. Comecei a compreender que anarquia era sinónimo de Ecologia e também sinónimo de revolta contra as instituições de um sistema que vive de ir matando os ecossistemas, incluindo nos ecossistemas as próprias pessoas que somos nós todos, cidadãos, jovens ou velhos, crianças ou adultos, pobres ou ricos.

Mas não ficaram por aí as lições ecológicas que fui aprendendo desta minha revolta contra a Escola e os exames: como não tinha memória para empinar calhamaços, refugiei-me onde? É evidente: refugiei-me na imaginação, nas ideias, na intuição, no instinto até, de contrário e se não criasse autodefesas, acabavam comigo num internamento psiquiátrico.

O meu sistema imunitário ficou assim mais forte para poder manter esta luta de morte, diária, contra as várias instituições que teimam em destruir as pessoas na sua individualidade, os indivíduos na sua personalidade, das várias instituições que se apoderam do jovem estudante, no meu caso um estudante medíocre que preferia escrever versos de amor a saber da vida particular do senhor D. Duarte ou da senhora D. Maria Pia, ou o aparelho digestivo da lombriga (e isto sem ofensa para a lombriga que é uma pessoa altamente respeitável).

Esta minha atribulada luta de resistência diária contra as instituições e, de um modo geral, contra o sistema chamado "civilização ocidental", que de civilização acho que não tem nada e cada vez tem menos, levou-me a outra estratagema, para não ser totalmente liquidado: Ecologia foi então, para mim, o mecanismo que me permitiu saber, no caos dos conhecimentos particulares e especializados, o que afinal interessava e o que não interessava. Perante milhares de temas, livros, autores, ciências, enciclopédias, a Ecologia fazia apenas esta pergunta: de tudo isso, o que é que interessa à sobrevivência individual, à sobrevivência da espécie e do Planeta? Ecologia, neste sentido, é um caso de vida ou de morte e , afinal, o que há de mais concreto: ser ou não ser, como diria o Hamlet.

Quer dizer: fiz passar por este crivo - a urgência ecológica da humanidade frente ao seu próprio fim próximo - o que importava ou não importava, o que era ou não era interessante, o que devia ou não devia ser aprendido e decorado, o que servia ou não servia a luta de autosobrevivência, individual ou colectiva, perante um mundo de catástrofe que a indústria e os industriais, a ciência e os cientistas, a tecnologia e os tecnocratas, vão religiosamente construindo.

HÁ 15 ANOS

Há 15 anos, já havia pouca esperança de que alguma coisa mudasse nesta escalada e na marcha do Planeta para o abismo.

Há doze anos, comecei a crónica semanal do jornal "A Capital" em defesa do Planeta Terra e devo ter recebido, até hoje, em mais de 600 crónicas , umas quatro ou cinco cartas de leitores dizendo que, sim senhor, que é preciso é lutar pela nossa querida Terra.

Convites como este vosso, para conversar com jovens, foram um pouco mais: duas ou três dezenas.

Acontece que, em 15 anos, tudo o que ameaçava a integridade do ecossistema Terra não mudou, antes se agravou.

Se eu insistir muito nesta tecla desagradável, vão dizer-me que sou derrotista e que não se deve ser derrotista para a juventude.

Mas a verdade é que não sou nem quero ser derrotista, pessimista, etc ista. Sou e pretendo ser realista - por isso, em vez de ecologismo chamei sempre à minha corrente ou tendência, dentro das várias correntes do movimento ecologista, um nome de que exclusivamente me responsabilizo e de que reivindico a autoria: realismo ecológico. Realismo vem primeiro e é substantivo, ecológico vem apenas adjectivar o substantivo realismo.

São muitas, no entanto, as razões de esperança: e sempre que os tecnocratas me deixam um minuto de folga , escrevo e falo dessas tecnologias da esperança, que são a única alternativa à estupidez do sistema instalado.

A TÃO FALADA PGA

Hoje, porém, só vos queria falar de uma dessas razões de esperança: é o tão falado PGA. Depois destes anos todos ladrando no deserto, a Prova Geral de Acesso vem afinal dar razão, in extremis, àqueles que, como eu, levaram uma vida inteira a dizer que nem só de ciências particulares vive a escola e de que à barbárie da sectorização e da sectarização dita cientifica é necessário , pura e simplesmente, que as novas gerações contraponham e ponham também a funcionar aquelas partes do seu cérebro, do seu espírito, da sua mente, do seu coração, da sua sensibilidade, da sua afectividade, que a escola tem sistematicamente atrofiado.

Aos 56 anos de vida e vinte e tal de luta pela cultura - quer dizer , pela ecologia - contra a barbárie chamada civilização tecnológica e industrial, vem a PGA dizer o mesmo mas uma só vez na vida do estudante. E sem exemplo.

Desculpem que o diga com este pretensiosismo. Mas afinal não fiz outra coisa nos meus atribulados anos de liceu e depois, também, numa escola do Magistério Primário onde fiquei com o rótulo de professor. Que estranho tempo e mundo, afinal, é este, onde todos colaboramos na nossa própria e vertiginosa auto-destruição.

A PGA, quanto a mim, tem um defeito: ser apenas obrigatória para os estudantes do 12º ano, quando os primeiros a fazer Prova Geral de Acesso deviam ser todos os quadros do Ministério da Educação, depois todos os quadros de todos os Ministérios, depois todas as hierarquias burocráticas e tecnoburocráticas, que, por aí fora, se governam governando-nos . Todos, desde o 1° Ministro ao Presidente da República, deviam fazer Prova Geral de Acesso.

Todos os que sofrem de arrogância, de tecnocracia adquirida, de sofismomania agravada, deviam ser submetidos a PGA, que aliás me parece um arremedo das provas iniciáticas que em todas as sociedades verdadeiramente evoluídas e civilizada, ecológicas e cultas, sempre houve, como condição sine que non de não deixar penetrar a barbárie que está sempre à espreita para entrar nas sociedades com o sistema imunitário enfraquecido.

Ora a barbárie nesta civilização que temos não entra pela porta do cavalo mas exactamente pela porta da chamada cultura ou das chamadas instituições escolares e universitárias.

Talvez por isso vocês possam perceber porque estou aqui, com este ar cansado e só ligeiramente triste, mas com muita esperança a falar-vos do desespero e com muito desespero a falar-vos da esperança.

Esperança que, se vocês mo permitem, eu personificaria na figura do Professor Agostinho da Silva, um dos nossos poucos representantes da cultura culta, face à cultura tecnoburocrática.

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(*) Mensagem de Afonso Cautela a um grupo de alunos do Liceu D. Pedro V, em Lisboa, durante um colóquio para o qual foi convidado e no qual se sentou ao lado do prof. Agostinho da Silva. ♥♥♥♥♥