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A OUTRA ORELHA
DE VAN GOGH
l. Dezembro.1987
"Baixa a bolsa, sobem as cotações na (bolsa da) Arte" - dizia Amaral Pais, no "Jornal das Nove" (e dez) do dia l de Dezembro de 1987.
Era a propósito de um Van Gogh "Os Lírios", que atingiu, ao que parece, o valor de sete milhões de contos, quase o Orçamento do Estado português.
A relação de vasos comunicantes entre a Bolsa de Valores e a Bolsa das Artes Plásticas é, de há muito, uma evidência mesmo para os mais estúpidos como eu, sem que, no entanto, haja da parte dos espertos um grande interesse em enfatizar essa evidência.
Convém que o negócio esteja relativamente resguardado dos curiosos e, principalmente, dessa praga que são os amadores metendo-se ao jogo de mistura com os profissionais, numa promiscuidade repugnante.
Uma série da televisão britânica que se chamava "Love Joy", fruto de um tatcherismo atento às pulsões neo-capitalistas que fermentam nos campos concentracionários que são as capitais federais dos Estados, centra-se precisamente nesse "mercado" da Arte, expressão que já nem sequer escandaliza os mais moralistas.
Longe vão os tempos em que o Van Gogh escrevia ao seu irmão Lheo pedindo-lhe que lhe valesse num suprimento de comida, longe vai o tempo em que o fisco perseguia como uma sarna os poetas e artistas, longe vai o tempo em que o artista (plástico) comia (quando não comia pau de marmeleiro) o pão que o diabo amassava com vinagre, às segundas, quartas e sextas feiras, guardando aos domingos o santo nome de Deus.
Agora, graças à caspa, os artistas ejaculam mais galerias do que quadros, deslumbramento em perfeita sintonia com os empresários. Aliás, quem distingue empresários de críticos?, como se interrogava, na entrevista que concedeu a "A Capital", o escritor Vasco Rodrigo Lobo, que se estreou em livro aos 54 anos...
Agora e graças à caspa, por trás de cada pintor (salvo seja e sem maldade) há hoje um perito em marketing e atrás de cada galeria um super-mercado (ou vice-versa).
Agora e graças à caspa, a lei do mecenato já pertence à nova ordem de coisas em Portugal. Estamos a "tatcherizar-nos" à velocidade da luz.
Pelo menos na rua do Século e imediações, onde têm nascido mais galerias de Arte do que cogumelos, estamos já na Europa. Com cheiro a Bairro Alto, mas de qualquer maneira Europa. A tal ponto que passando por lá um dia destes, consegui não reconhecer a velha rua do velho jornal por onde alguns anos andei até" ao seu falecimento.
A velocidade das "mudanças" só assusta os covardes: cada dia uma nova moda, e agora a moda é o que está a dar.
Cada dia a bolsa sobe, cada dia desce, cada dia um artista sobe na girândola da fama, cada dia desce.
E nós, os escribas acocorados, cá estamos para o sobe-e-desce de todas as bolsas.
Um Van Gogh por sete milhões?
"Se lá no assento etéreo onde subiu, memória desta vida se consente, seria que o Van Gogh cortaria, de raiva e de horror, a outra orelha?■♥♥♥