1-3- < 92-09-01-ac-ecc> afonso – ecos da capoeira segunda-feira, 3 de Fevereiro de 2003-novo word - 6292 caracteres <trop-3> <diario92> <cfq>

 

TROPISMOS

CRÓNICA (CENAS) DO QUOTIDIANO

Lisboa, 1.9.1992

Ligo a lâmpada do quarto e não aparece luz. É a chamada avaria intermitente. Que nem sequer dá para chamar o electricista. Se ele vier, a luz volta e eu fico com cara de parvo. Mal o técnico saísse, a luz desaparece, desliga. E assim sucessivamente.

A televisão está péssima, mas a casa do Sr. Abel Pereira, que costuma mandar o técnico, diz que não tem ninguém que queira trabalhar: o único que aparece, raramente aparece. Tem em bicha mais de 20 antenas para ir ver.

De manhã e sob o risco de entrar em órbita, fui à extinta Direcção Geral da Comunicação Social (de que há uns restos a funcionar no Palácio Foz) e dou com a D. Conceição Pereira, que me responde de má cara à pergunta: «É aqui que se regista o título da publicação periódica?» É. Mas primeiro tem que dizer o nome da publicação (óbvio!), a ver se já existe registado. O que equivale a dizer que tenho que dar o nome da publicação que devia (como é óbvio!) permanecer confidencial.

A burocacia inclui pedidos (em papel azul ou papel em branco) ao senhor Secretário do Ministério da Justiça, que é na Praça do Comércio. Mas não é lá que me dão o resultado do pedido...

O processo terá de passar por este tenebroso departamento de uma tenebrosa mas extinta Direcção Geral, onde reina esta tenebrosa dona «tatão», direcção geral que, mesmo extinta, continua a existir, com papéis espalhados pelo chão e um senhor sentado à frente de um computador.

Mal a informação me é, mal e porcamente, fornecida, aparece à porta uma outra menina dizendo à D. Conceição Pereira que a srª. não sei quê está à espera. É já a situação de despedir hóspedes e ainda não fui suficientemente esclarecido das complicações burocráticas.

Agora mesmo a Astrid, mãe da Cristina, passa por aqui a dizer-me que a Cristina foi a Leiria para tratar da transferência para a escola de Belas Artes de Lisboa.

Todo o trabalho que tivemos de ir às Caldas buscar uma informação que não quiseram dar por telefone, foi por água abaixo. E a ida às Caldas ficou memorável. As informações recebidas na secretaria da escola estavam afinal erradas.

Ou antes, não eram suficientes, o que dá na mesma. Foi em vão o envio, com aviso de recepção, de um formal pedido de autorização ( peço a Vª Exª se digne). E lá foi a miúda, outra vez, jogada para Leiria, onde deverá ser recebida por um funcionário mal humorado, que também a tratará a pontapé, talvez o mesmo que me recebeu quando fui lá, o ano passado, a pedido da Cristina, para conseguir o documento que me desse direito ao abono.

A propósito de abono: a única regalia dada aos jornalistas depois do famigerado 25 de Abril, a caderneta de cheques que dá direito a 50% de desconto nos transportes públicos, ainda não foi extinta, mas aperfeiçoou-se com algumas complicações: agora é preciso preencher um papel, com o número da carteira, a fotocópia da dita. «Em 24 horas, tem o seu livro de cheques», disse-me, agora no salão de entrada do Palácio Foz, o funcionário forçadamente amável, como a desculpar-se das novas e acrescentadas burocracias! Jornalista sem carro, que tem de recorrer a transportes públicos, já é humilhação, mas agora a coisa fica, como deve ser, ainda mais humilhante.

Aguenta, Afonso, a vaga de «malaise», como diz o senhor Presidente da República, em reportagem do «Público», parece ter caído toda em cima de ti. E a recordação de humilhações parece correr em cascata.

Quando foste inscrever-te na Direcção Geral da Cooperação, porque já não aguentas o emprego de Aushwitz e porque já não aguentas este país, e porque já não aguentas esta «malaise» de que fala o sr. Presidente da República, encontraste uma senhora toda chatiada como a agora a da chatiadíssima Direcção Geral da Comunicação Social (extinta), a D. Conceição Pereira, Tatão prós amigos, inscrita para toda a eternidade na lista dos meus ódios incuráveis.

Quando perguntei na recepção do Palácio Foz o nome da senhora, para que ela ganhe a celebridade através deste meu diário dos tropismos, o contínuo disse-me: «É D. Tatão!» Tatão? Sim, é como a gente conhece a D. Conceição Pereira.

Tatão ou não, é mesmo mal disposta e faz gala de o mostrar.

Ah! Não! O meu ódio hoje ainda chega para a senhora que nas Caldas da Raínha nos deu a informação errada: que o pedido de transferência era feito em papel azul, nos disse, ranhanhá, ranhanhá.

E de imediato fomos à papelaria, comprar 2 folhas de papel azul de 25 linhas. E na pastelaria, sentados, a Cristina preencheu, com a sua letra impecável, o dito papel azul. E logo, no dia seguinte, com o papel azul e no correio azul, fomos ao correio, para que tudo ficasse perfeito e ninguém da burocracia tivesse por onde pegar.

Mas não era perfeito. Envelope de correio azul com registo, nem pensar: não era compatível. Voltei a casa, resfolegando, rápido, buscar um envelope branco. Não sem que antes me saltasse a tampa e fizesse uma cena histórica (histérica) de gritos ali, no correio, com a pobre da empregada assarapantada e a Cristina já com o beiço a tremer-lhe, humilhada com a minha cena, como se a minha raiva fosse com elas e não com os cabrões do cabrão deste país. Ou deste mundo. E com os agentes do QUOTIDIANO.

Sou eu o histérico ou esta vida é que é insuportável? Ou o quotidiano deste país é que ficou fascista para todo o sempre desde o fascismo?

Mas eu tenho este papel para desabafo. Apesar de tudo, nem sou dos membros da sociedade mais desfavorecidos. Sou alfabetizado, não tenho carro mas tenho passe privilegiado de jornalista, tenho um curso de professor primário que não me serve de nada mas que é um curso, não faço parte da escumalha, do lumpen proletariat, querem tirar-me a casa onde habito mas nem habito em bairro degradado.

Tenho pele branca, o que é também importante num país de racistas encobertos, contrato de trabalho, senhas de refeições, subsídio de férias e 13º mês.

Mas os analfabetos? Os trabalhadores clandestinos traficados por negreiros, os de pele negra, os que habitam, mal tolerados, os bidonville?