<trafico > notícias escolhidas

 

GUERRA DO GOLFO NÃO DIMINUIU

TRÁFICO DE FALCÕES

27/2/1991 - A guerra do Golfo não diminuiu o discreto tráfico internacional de falcões peregrinos que, no entanto, se tem revelado bastante lucrativo. Uma das tarefas do emir do Koweit vai ser o de reconstituir a sua colecção pessoal de 100 falcões que deixou no emirado, quando se deu a invasão iraquiana. No Médio Oriente, o falcão peregrino é um símbolo exterior de riqueza pelo que cada família importante deve ter vários destes exímios caçadores, quer pelas suas capacidades visuais quer pela sua rapidez de voo.

No entanto, o falcão peregrino, protegido desde 1972 pela Convenção de Washington, é um animal frágil. Quando em cativeiro, são necessários cinco a seis anos para que inicie o seu ciclo reprodutivo, exigindo condições muito especiais, e à custa de uma alta mortalidade dos jovens falcões.

Estes problemas são mais um bom motivo para o tráfico internacional manter os «malucos» da caça existentes nos países do Golfo, bem como aumenta o interesse dos seus fornecedores, os falcoeiros alemães da Deutsche Falkon Orden (DFO), considerados os melhores do mundo desde 1929.

No início da Primavera, os traficantes retiram centenas de ovos dos seus ninhos, um pouco por todo o mundo, e transportam-nos em incubadoras até à Alemanha. Aqui, os falcoeiros fazem eclodir os ovos e vendem os falcões como animais de criação.

«É um escândalo quase oficial e sempre florescente», protesta Claude Kurtz, 35 anos, presidente da SOS Falcão Peregrino, em Sturzelbronn (França). «A legislação alemã prevê quatro semanas para declarar a postura dos ovos e quatro semanas para a sua eclosão, mas não existe nenhuma verificação para determinar a sua origem», afirma Kurtz.

Para os falcoeiros alemães, que criaram o tráfico, ou, segundo eles, o comércio, o falcão é uma verdadeira galinha dos ovos de ouro. Um macho pode valer entre 25 a 40 contos e uma fêmea pode atingir cerca de 55 contos, ou mesmo 80, caso se trate do raríssimo falcão Gerfault da Escandinávia. Um dos traficantes destas aves de rapina, com a alcunha de Muller Gerfault, é o detentor da mais bela colecção de falcões do mundo.

Nenhum país se encontra suficientemente longe para este tipo de tráfico: Espanha, Itália, Turquia, os países do Magrebe, onde as leis sobre a protecção da natureza são mais suaves. Mas também a Escandinávia, Estados Unidos e Canadá onde existem espécies muito apreciadas, ainda que bem protegidas. Recentemente surgiu um novo destino a acrescentar à agenda de direcções dos falcoeiros, os países de Leste, onde, segundo Claude Kurtz, alguns oficiais do exército se encarregam pessoalmente do fazer o tráfico.

CRIME COMPENSA

Regularmente os traficantes utilizam uma incubadora com ovos dissimulados, como foi o caso de um licenciado em diplomacia, natural de Worms, detido na Alsácia (França) com cinco falcões peregrinos, ou um outro traficante detido em Douvres (Grã-Bretanha), quando se preparava para partir para território francês, em Abril de 1990, com doze ovos dissimulados nas mangas do seu blusão.

No entanto, as sanções previstas para estes casos não são suficientemente dissuasivas. «Apenas as fronteiras podem impor sanções mais duras, de acordo com a convenção de Washington» explica Claude Kurtz.

Os traficantes podem ser condenados apenas até três anos de prisão e a multas podem atingir um montante até duas vezes superior ao valor da mercadoria apreendida. Alguns foram já presos várias vezes, mas todos eles têm o dinheiro suficiente para pagar a caução. O filho de um traficante de Colónia, preso nos Estados Unidos, com a boca na botija, ou melhor dizendo, com a mão no ninho, foi libertado logo no dia seguinte, depois de ter pago uma caução no valor de 40 mil dólares.

Os principais traficantes, três ou quatro, segundo Kurtz, recorrem a intermediários, que por sua vez se limitam a contactar os seus clientes, à medida que chegam as suas encomendas, numa média de dez a 15 falcões por semana.

Por vezes, são os próprios traficantes a criarem a sua «mercadoria». Desta forma, criou-se uma nova moda, os híbridos, resultantes de um cruzamento entre o falcão Gerfault e o falcão-Sacro, mais poderosos, mais hábeis e mais caros... Mas sobretudo, infringindo completamente a regulamentação internacional sobre os híbridos.

«Não sou contra a falcoaria», sublinha Claude Kurtz, «mas penso que ela deve ser reservada a pessoas com uma certa ética e um certo tempo». Sobretudo porque os riscos de saque destes falcões é evidente: «Em França calcula-se que existem cerca de 300 casais de falcões, mas todos os esforços para a sua preservação podem ser em vão, se não se fizer nada para pôr fim a este tipo de tráfico», previne Claude Kurtz.