1-1 - <79-12-31-di-ecc> segunda-feira, 30 de Dezembro de 2002-scan
TARDE PIASTES
CAMARADAS(*)
[«Portugal Hoje», 31-12-1979]
Que há liberdade de Imprensa, tem-se visto: e tem-se visto de que maneira essa liberdade foi exaustivamente aproveitada pelos que sabem muito bem como destruí-la.
Abespinharam-se agora, já tarde, alguns jornalistas, entre eles alguns editorialistas, com um «desabafo» de Maria de Lurdes Pintasilgo, provocado por um artigo que acabara de ler num semanário, igual a dezenas de outros que ao longo do seu governo se escreveram e que deveriam ter feito corar de vergonha quantos jornalistas, minimamente decentes, fazem prosa neste país.
A verdade é que nunca essa campanha, essa onda de terrorismo verbal fez abanar os jornalistas que contra tais processos e tais campanhas se deveriam ter demarcado para não se ver envolvidos.
Nunca se demarcaram dessa onda que, a pretexto do V Governo, se abateu sobre a personalidade de Maria de Lurdes Pintasilgo.
Os camaradas que agora se abespinharam por ter sido apanhados na mesma rede - o juízo global de Lurdes Pintasilgo sobre o indecente comportamento da Imprensa - deviam então ter sabido a tempo anunciar que não eram implicitamente cúmplices nesse comportamento em que a maioria da Imprensa alinhou.
Tarde piaram. Mas foi bom - salutar e higiénico - que Pintasilgo piasse, remetendo os actos a quem os praticou. Convidando à autocrítica os que nunca souberam o que isso fosse. Chamando os próprios jornalistas que o são e têm honra nisso, a salvar a face salpicada (devido à proximidade) pela mais colossal onda de mentira, terrorismo verbal e manipulação jornalística a que este País, impávido, assistiu, tolhido talvez do medo e do espanto de levantar a voz, sequer o pensamento, no meio de tamanha e tão gigantesca «liberdade de Imprensa».
De resto e sem querer pintar o quadro muito negro, talvez jornalistas e leitores tenham, respectivamente, os leitores e jornalistas que merecem.
Pelo que Lurdes Pintasilgo nunca deveria ter saído da sua UNESCO em Paris, deixando que, por aqui, antropofagicamente, e com a boa ajuda dos jornalistas (é um facto), nos continuemos comendo livremente uns aos outros, até livremente rebentar.
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(*) Este texto de Afonso Cautela, foi publicado no jornal «Portugal Hoje», 31-12-1979™