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11/2/1992

DIÁRIO DE UM ESPECTADOR

Agora é a própria Rússia que tem interesse em exportar uma imagem de Cáos, guerra, tensões, miséria, bichas ao supermercado, manifestações de protesto, etc. Estende assim as mãos à caridade ocidental, o que é rentável para ambos os lados. Não digo que seja tudo simulacro - há, evidentemente, uma base real para esse espectáculo, diariamente transmitido pelo Carlos Fino. Mas hoje a regra é que todo o simulacro tem uma base real - para o tornar verosímil - e todo o real se expande em simulacro.

Se a Rússia tem interesse em estender a mão à caridade ocidental, o Ocidente capitalista tem maior interesse ainda em mostrar o Caos que por lá vai, a prova d«o fracasso do comunismo».

É assim muito difícil saber até que ponto as imagens vindas hoje daquele lado traduzem a realidade e que percentagem dessa realidade traduzem. No geral, está provado e assente que os media ocidentais vivem do «sindroma pânico». Leia-se o semanário «Tal & Qual» e desde a ponte sobre o Tejo que está com fissuras na estrutura, até aos autocarros laranjas que voltam outra vez a matar peões, até ao eterno vírus da sida que ataca por todos os lados o pobre cidadão indefeso, esse jornal - como tantos outros -- sabe que o medo faz vender papel e parece um boletim de publicidade às companhias de seguros. Como seguros e bancos são nomes diferentes para a mesma coisa, parece não estar muito longe a ideia sobre o modo como o medo, o pânico, a insegurança, o perigo, insistentemente cultivados, noticiados, enfatizados, criam o estado de espírito necessário para que as seguradoras (e portanto os bancos seus filiais amigos...) prosperem.

De um ponto de vista psicopolítico, é óbvio que a insegurança serve bem o Poder estabelecido. Mais inseguro, o cidadão fica na dependência do primeiro protector salvador que lhe aparecer. O susto é politicamente relevante e rentável. O Susto - tal como o Crime - compensa. A Angústia é rendosa e rentável. Há jornais e telejornais que não vivem mesmo sadomasoquisticamente de outra coisa: explorar o Medo, os medos vários em que estamos atolados, apertar-nos a boca do estômago parece regra inviolável para todos os dias nesta sociedade de violência e canibalismo. Quando não são imagens do dia a dia, são subhitchockianas ficções romanescas de suspense e medo pré-fabricado. Tudo vai dar ao mesmo: mais clientes para as companhias de seguros. ™™™