<90-02-12-cb><sida-1><ficções>
SURREALISMO MÉDICO
[mesmo sob o disfarce da ficcionação e mesmo em livro, a publicação deste texto e de outros do mesmo teor - sobre a muge - é muito problemática, antes de ser extremamente perigosa]
Lisboa, 12/2/1990 - A literatura médica fornece à Antologia do Humor Involuntário alguns dos seus melhores textos. Ler o produto da chamada investigação científica no campo da chamada Medicina, enriquece-nos sempre de novos conhecimentos mas, principalmente, desopila-nos o fígado. O livro do Prof. Dr. Robert S. Desowitz, iminente investigador, biólogo e imunologista, patrocinado pela Fundação Rockfeller, não foge à regra e, para lá do habitual non-sense em conversas do género, ele brinda-nos com a ironia, nomeadamente em relação aos povos do terceiro Mundo e outros esfomeados. Tudo isto à conta de nos querer explicar - diz ele - «como funciona o sistema imunitário».
O «humor negro», com efeito, é um dos mecanismos que tornam o livro do Dr. Robert Desowitz, uma obra verdadeiramente surrealista. Fugindo por instantes à vigilância policial das multinacionais farmacêuticas, ele dedica um capítulo à «terapêutica metabólica» que, como se sabe, põe radicalmente em causa a medicina química de síntese. Mas, antes de elogiar o poder terapêutico do Selénio, da Vitamina C, A e E, ou do Zinco, ele vitupera aquelas correntes e práticas nutricionistas que há cinquenta anos, pelo menos, não têm defendido outra coisa diferente daquela que o Dr. Desowitz agora defende e só agora descobriu.
O surrealismo deste impagável autor de anedotas que é o Dr. Robert S. Desowitz, revela-se ainda quando ele próprio diz que tomou o Zinco na altura em que, escrevendo sobre constipações dos outros, se sentira ele próprio constipado...
Mas o surrealismo continua, pois tendo a coragem de referir largamente a origem nutricional, ambiental e comportamental da maior parte das doenças, especialmente as endemias do Terceiro Mundo que são as endemias da Fome, quando chega ao capítulo da sida alinha, sem hesitar, na tese do «vírus». Depois de demonstrar, por A mais B, que o Vírus é secundário relativamente ao terreno e que só existe sob a forma mascarada de «incubação lenta», volta a impingir-nos o Vírus que o Sr. Max Gallo e outros senhores inventaram para comprazer às multinacionais da vacina.
Mas as contradições deste livro sucedem-se ao ritmo de três por página. Há muito tempo que não lia um texto surrealista que me desse tanto gozo.™™™