<84-08-06-ec> = ecos da capoeira – inédito ac de 1984 – 3 estrelas
AS NOSSAS OLIMPÍADAS
SUPER-RATO SOBE AO PÓDIO
6/8/1984 - Dão-te raticida para que fiques olimpicamente forte e ganhes, fiques vencedor, contra tudo, contra todos , contra ti próprio.
Ai de ti, pois, se não deitares os bofes pela boca e o teu corpo não ficar em "bocados repartido" pela meta fora da Glória olímpica.
Ai de ti se não ganhares tudo o que nós, povo do Quarto Mundo, já perdemos , já nos tiraram.
Ai de ti, Mamede, Rosa, Lopes ou Zé Povinho, se depois de "tudo o que a gente fez por ti", incluindo treinadores e fisiologistas do esforço, não fores o herói, o mártir e o morto numero 1 de Sucupira que os Teodoricos cá do sítio te obrigam a ser, pelo que te pagam e em ti, como cavalo de corrida, investiram.
Ai de ti, lembra-te, porque os cavalos também se abatem.
EM DIRECTO POR SATÉLITE
Multidões ululantes exigem, na poltrona frente à televisão, que Mamede ganhe, triunfe, chegue à meta, dê "tudo por tudo", para isso o prepararam os melhores treinadores, para isso o instalaram nos melhores hotéis, lhe deram a melhor sobremesa e o trataram, com papas e bolos, de herói antecipado. Ninguém lhe perdoa agora desistências, era o que faltava, e muito menos síndromas psíquicos. Os comentários irritados do jornalista radiofónico, às 5 da manhã, no calor da noite, sintoniza a irritação de milhões de portugueses que, segundo a RTP, exigiram prolongamento da emissão nocturna até de madrugada, embora - comenta a locutora - "isso envolvesse pesadas verbas". Que importa, os milhões de contribuintes pagarão esses enlevos. Aliás, que são as verbas da RTP (e do País) comparadas ao minuto de glória que poderíamos gozar da nossa poltrona televisiva e nos foi negado?
No Tele-jornal das 20 horas, dia 6 de Agosto, festa de Hiroxima (outro grande recorde mundial olímpico) o auge da emoção atingiu-se com a entrevista feita a um especialista em "fisiologia", que até chorou por ter visto o dramático espectáculo da corredora suíça que, agonizante, se arrastou os últimos metros como um farrapo humano. "Belo horrível" disse o Dr. Eduardo Figueiredo, especialista em esforço humano, no que logo o locutor lhe pegou na palavra. Mas Rosa Mota é nossa e ninguém no-la tira, nem a União Soviética, a cuja ausência dos Jogos talvez se deva a possibilidade de Rosa Mota ter ganho. Que bom bode expiatório das nossas fraquezas e dívidas ao FMI.
" Tudo por tudo", "belo horrível" , "nos limites da resistência humana", "correr para ganhar", "vale mais um minuto de glória do que uma vida inteira apagada" - eis todo um fraseado que já não se ouvia com tanta frequência desde Mussolini. Nem sequer falta, porque está implícita a regra de oiro: "viver perigosamente". Aliás, os grandes mestres do "esforço" até à morte que foram Salazar, Franco, Mussolini, Hitler, Estaline, Alexandre da Macedónia , Nero & Cª, não diriam melhor. Eles também foram grandes especialistas em esforço e desforço.
TEATRO DE GUERRA
Mas abençoemos este teatro de guerra, exactamente ocorrido no aniversário de Hiroxima, outro "belo horrível". Se não fossem as Olimpíadas, em Moscovo, Los Angeles ou Berlim, já tínhamos ai uma guerra nuclear de todo o tamanho com umas bombas sobre mais algumas Hiroximas.
Recordes e cordas vocais partidas só não são permitidos ao Terceiro Mundo, conforme proclama a conferência contra a População realizada no México, o tal país de que um recordista da Piada disse: "Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos:" O recorde, explosão ou bomba demográfica é o único que o espírito olímpico não encoraja e ele lá sabe porquê. Culpam-no da Fome e da Poluição, até. Culpam a Vida de ser culpada da Morte...
É por isso que no Quarto Mundo, Portugal incluído, dão um mês de férias ao povo trabalhador, com direito a correr olimpíadas às três refeições, ora a 1 ora a 2, mas com o dever de tirar as tripas ao povo trabalhador nos restantes 11 meses do ano de austeridade e Bloco Central.
O especialista em "fisiologia do esforço", aqui, vai com certeza emocionar-se por ver milhões arrastando a perna esquerda, paralisada, comentando aos milhões ululantes: "Vale mais um minuto de glória do que a Vida".
Uma vida inteira a condicionar este animal que outrora se chamou homem para o fazer correr de carreirinha, não admite falhas nem falhanços. Antes a morte que tal sorte.
Quando o Rato, por mais raticida que lhe receitem, não consegue chegar a Super-Rato, é melhor morno e no prato. Servido morno.
Vamos então à fábula que, a propósito do animal mais parecido com o Homem - Rato, Barata, Frango ou Macaco? - tínhamos hoje para contar, entre o Terceiro e o Quarto Mundo, entre Hiroxima, Los Angeles e Lisboa, com escala por Berlim 1936. (ver file <rato>)◙