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UMA QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA

Lisboa, 2001-02-14

Meu Caro DN:

No momento em que o vazio nacional era total e totalitariamente preenchido, em jornais e telejornais, pela importantíssima polémica sobre o monstro fálico que o sr. Soares quer impor à pobre cidade de Lisboa (tipo supositório) , eis que rebenta, em jornais e telejornais, a polémica do genoma humano. Afinal muito mais pequenino do que os catalogadores desejavam, eles que queriam genes para o resto das suas carreiras, principescamente pagas pelos que já fazem bicha para tirar patente. A mesma frustração devem ter sentido os arqueólogos portugueses que inventariam os megalitos alentejanos ( o tal sagrado alquimicamente puro) e que, de repente, se vêem privados dessa fonte de receita, eles que estavam na missão patriótica de desenterrar o que o maior lago artificial da Europa (só podia!) vai engolfar. Nisto de lago artificial, os editorialistas também não se poupam a esforços: a grande polémica gira agora, consumado o crime de Alqueva, à volta da importantíssima questão de encher a dita até à quota 139 em vez de, como quer a EDIA, até à cota 147: sempre se salvavam 300 mil árvores do holocausto, podendo então falar-se, com as consciências todas muito tranquilas, de um holocausto menor, ou seja, à nossa dimensão de Portugas. Agora que o crime está consumado, com o amen de todos (incluindo jornais e telejornais) vai ser um corropio de polémicas sobre o que a EDIA prometeu e não vai obviamente cumprir. É o que dizem.

No meio deste pântano do politicamente correcto (Alqueva) e do cientificamente correcto (genoma) , quero, no entanto, destacar a voz que, apesar de algumas ocasionais cedências, nunca me desiludiu no nosso jornal: a de Luís Delgado (a quem perdoo as suas paixões internéticas...). No meio do pântano do cientìficamente correcto, Luís Delgado diz, (13/2/2001, no artigo intitulado «Aperta-lhe o Gene») , com o mínimo exacto de bytes (virtude principal que lhe invejo), o que tem de ser dito sobre o biofascismo que há muito nos preparam, com pézinhos de lã e agora às escâncaras. Vaidosamente, eram essas as palavras, pontos e vírgulas que eu gostaria de ter escrito e que me deixaram a única esperança possível , neste tempo de bioterror ao abrigo dos altos desígnios da alta investigação. Pode ser, Luís Delgado, que a gente os dois, em clara minoria, ainda consiga vencer a ditadura dos milhões de intoxicados, corruptos e manipulados do politica e cientìficamente correcto. Porque não há mais nada nem ninguém (no deserto deste vazio e no vazio deste deserto) para onde olhar. Gostava mesmo que esta carta fosse publicada. Obrigado. -AC