1-2 - <72-12-24-ie> domingo, 5 de Janeiro de 2003.scan

PRODUTIVIDADE

DE TODOS E PARA TODOS (*)

[ 24 - Dezembro – 1972]

Criado pelo Governo um conselho Nacional de Produtividade, o menos que se pode pedir a esse Conselho é produtividade e que trabalhe em ritmo animador para bem de nós todos. Esperamos que não aconteça a este Conselho o que, por vezes, acontece a comissões, grupos, iniciativas criadas com a melhor das intenções mas que, depois, caindo naquele ramerrão típico dos nossos costumes, nunca mais dão sinal de vida E de si.

Que um Conselho Nacional de Produtividade produza, muito e bem, é pois o voto de quem gosta de produzir, de trabalhar, de contribuir dentro do seu modesto âmbito para o bem da Pátria e o conforto do compatriota.

Penso, por exemplo, no meu vizinho sapateiro que tantas vezes me tem desenrascado na hora H, que me socorre quando eu chego, em apuros, à sua porta e lhe peço umas gáspeas urgentes na bota que acabo de meter na poça e que acaba de me abrir a bocarra no preciso dia e momento em que começaram a cair as chuvadas torrenciais.

Penso na menina do guichê que me coloca o selo para cartas mais pesadas e penso que, quando ela é eficiente e me sorri, o dia vai correr todo de feição.

Penso no rapaz que me deixa todos os dias o jornal: se se atrasa cinco minutos, começo a ficar pior do que uma barata, que isto de ler o jornal é pior do que uma habituação.

Pensando assim, nos meus vizinhos e compatriotas de cujo trabalho dependo - depende a minha disposição, o meu conforto, o meu tempo ganho ou perdido - acho que a produtividade em todos os sectores deve ser animada e fomentado, sim senhor. Com ou sem Comissão, a produtividade interessa-nos reciprocamente.

Mas reflectindo depois no oficio que me está distribuído no panorama das actividades laborais, uma coisa me assusta: a falta de produtividade a que o jornalista é forçado pelos hábitos instalados, ao longo de anos, nesta arriscada profissão de informar sem fontes, mas com muitos almoços.

Não há nenhum senhor, nenhuma entidade, nenhuma comissão que se não julgue no direito de convocar os órgãos da Informação.

Mas ao lado da convocação imprescindível - rápida, dinâmica, produtiva, despachada e práfrentex - quantas e quantas não tem o jornalista que suportar, só para queimar tempo, paciência, trabalho e produtividade?

Não vou enumerar os empatocratas, de todos tão conhecidos. Mas que prejudicam altamente a produtividade neste sector, não há dúvida.

Sem falar já das condições de ambiente que altamente prejudicam não já e não só o jornalista mas toda a profissão - que tem de se locomover e depende das intercomunicações à distância: telefones que não telefonam, transportes que não transportam, táxis de bandeirada sempre baixa, telégrafos que não telegrafam: quanto tempo nos queimam e quanto prejudicam esses soberanos serviços a produtividade?

No caso particular do crítico de cinema, quem indemniza o crítico do tempo que lhe queimam: com intervalos, com a publicidade às escuras, com a publicidade à meia luz, com, com, com?

E no guichê das repartições? Porque nos fazem esperar horas esquecidas? Porque nos queimam o tempo? Porque prejudicam a produtividade?

E as excelentíssimas burocracias? Porque chateiam tanto? Porque são tão inflexíveis na pintinha do i e na perninha do d?

Porque são tão chagantes com cauções e fiadores, os senhorios, a electricidade, a água, enfim, os serviços públicos fundamentais de que o cidadão depende?

E o metro? Porque nos faz o metro perder meia hora num percurso de 10 minutos? Porque não descongestiona? Porque não promove? Porque não imagina e aplica soluções?

E os colectivos ferroviários? E os colectivos Carris? E os colectivos todos? Porque atravancam? Porque ronronam? Porque queimam sistematicamente o tempo?

Quem impede os engarrafamentos? Quem soluciona os problemas de congestionamento? Quem manda punir o dono daquele cão e o dono daquela motoreta e o ronco daquele avião que não me deixam trabalhar e que me comprometem a produtividade?

Quem cria as condições mínimas de habitat, para que a produtividade surja por si?

É evidente que as condições de trabalho (desde as condições de temperatura às de ordem moral) influem na produtividade.

Tudo isso será encarado? Tudo isso será resolvido?

A oficina sem ar e sem conforto? As instalações sanitárias a pedir revisão? A cor das paredes? As horas de trabalho razoáveis? A iluminação e ventilação? A remuneração justa? A assistência e o abono? Os ruídos e a temperatura? A segurança na saúde e a sua estabilidade emocional? A. justa atenção às suas qualidades e a margem de iniciativa que torna o trabalho minimamente criador e interessante?

Tudo isso entrará em linha de conta? Oxalá, para bem da produtividade e da unânime participação de todos nos benefícios dela. Eu disse unânime.

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(*) Este texto de Afonso Cautela deverá mesmo ter ficado inédito, produzido na data indicada