<2000-8>
OS «OPINION-MAKERS»
QUE SALTITAM
O país, sem eles, já seria uma boa chatice. Mas com eles, torna-se um calvário.
28/5/2000 - Os «opinion-makers» que saltitam na imprensa mais selecta e patriótica - e que depois se derramam por vários canais tv - dão cabo da nossa patriótica paciência. Além de termos que pensar pelas suas cabeças (é o que pressupõe o fazedor de opinião) , ninguém mais, sem cartão de ingresso, tem o direito de vir também nos jornais e telejornais emitir uma democrática e patriótica opinião.
Uma vez no ano, quando os opinion makers encartados nos bombardeiam (e chateiam, semanal ou quinzenalmente), sem que ninguém lhes possa cortar a facúndia, aparece o Cavaco Silva também como «opinion maker», armado com o mesmo patriótico e democrático direito de fazer opinião.
Após o artigo de Cavaco Silva, no «Diário de Notícias» de 24/Maio/2000, foi um ber se te avias. E lançaram-se como abutres ao apetitoso banquete. De Carlos Magno a Aristóteles Onassis, de Vicente Jorge Silva a Vicente Aleixandre, de Luís Delgado a Humberto Delgado, de Manuel Vilaverde Cabral a Cabral Vilaverde, de Armando da Silva Carvalho a Fernando Pessoa, de Vasco Pulido Valente ao director do Hospital de Doidos, de António Barreto a Schwarzeneger, o Exterminador, de Mário Mesquita a Sam Peckinpah (o realizador da violência), toda a gente se aproveitou para se abastecer da carne fresca que lhe fora oferecida de bandeja, mas envenenada. O que deu em resultado tresmalhar os melhores crâneos do país, nomeadamente Carlos Magno (metafísico alucinogénico), Manuel Vilaverde Cabral (ponderativo), Vasco Pulido Valente (sempre valente e enfrenizado), o poeta Armando da Silva Carvalho (que considerou tudo politiquices, claro, já que politiquices não é com ele).
Mas superior a todos, o eterno António Barreto, verdadeiro Instituto Nacional de Estatística, computador imparável capaz de decorar a lista telefónica classificada da 1ª à última linha. E traça, claro, um quadro verdadeiramente aterrador do que aí vem, os tempos difíceis que se avizinham, já que estes, até agora, para ele devem ter sido fáceis.. O que será que aí vem? Segundo o oráculo Barreto de Delfos, é a catástrofe. Cunha Rego, que eu lia todos os dias, várias vezes anunciou a catástrofe económica. Pelos vistos, a que vem aí agora é ainda pior, igual ao Bug 2000 com que todos os opinion makers nos chatiaram durante mais de um ano, para já em Janeiro pós-mortem, o Luís Delgado concluir que tínhamos sido todos enganados com a história do bug.
Mas onde os opinion makers se esmeraram foi a defender os touros de morte de Barrancos, que continua a lutar patrioticamente pela sua independência. A ilusão dos opinion makers é que podem exibir o seu ódio aos animais, agachando-se atrás de rótulos seguros: eu sou um intelectual de esquerda bem pensante, eu sou um sociólogo ilustre, eu sou um suficientemente doutorado arqueólogo, eu sou (já disse várias vezes) anti-colonialista e anti-racista, eu sou (sempre fui) anti-fascista, democrata impoluto, homem honesto, sócio do Benfica, honrado como ninguém e, nas horas vagas, vedeta de televisão.
A merda é que talvez queiram ser mas não podem ser nada disto.
O mundo divide-se entre fascistas e amigos dos animais. Ponta final, parágrafo.
Um opinion maker pode ser ilustre representante da UNESCO, arqueólogo ilustre, grevista da fome para defender Foz Côa. Mas a partir do momento em que fecha os olhos à sepultação dos megalitos alentejanos pelos fascistas de Alqueva, fica ao lado dos fascistas (todos os partidos o são porque todos os partidos são por Alqueva) .
Não há moral, nem ética, nem honestidade, nem democracia, sem a ideia e a consciência clara do que é e não é sagrado. Por mais ardis e habilidades e truques e argumentos que os opinion makers inventem para tentar limpar-se e auto-desculpabilizar-se. Para encobrir a mediocridade irreparável das suas alminhas.
De facto , o mundo divide-se entre fascistas e respeitadores do sagrado e das culturas do sagrado. E ponto final.
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