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A ONDA OITENTA OU
O MARKETING DO MODERNO
10-3-1987 [ inédito?] - O pendor dito "esteticista" desta nova vaga dos anos oitenta, facilita o comércio de várias coisas, incluindo as almas dos jovens.
O "acto gratuito" , que já em André Gide, que o teorizou, não era novidade, aparece requentado porque dá lucros chorudos e bem pouco gratuitos, a galerias de arte (?), vendedores e autores de mamarrachos, ao bem organizado marketing do moderno, pós-moderno e, se for preciso, se der também lucros, do moderno.
Se for preciso e o marketing o decretar, retomam-se as teorias do homem lúdico ( Homo ludens, Huizinga), que brinca por brincar, pinta por pintar, escreve por escrever, fornica por fornicar, etc., etc
E já hoje se diz, com razão, que a obra esteticista de José Régio, por exemplo, é uma bela múmia. Verdade seja que os realistas, da arte comprometida, também.
O tempo, com as modas, passa depressa, os mealheiros dos empresários obrigam a tanto como o "noblesse oblige".
O "feed-back" instala-se neste raciocínio em pescadinha de rabo na boca, quando, em vez de um sociólogo que não toma posição, aparece um crítico, velho e caturra, que decide amar a juventude em vez de a explorar, e grita a verdade.
Então aí, a juventude, toma partido pelo carrasco que a condicionou a gostar dele, morde quem se atreva a defendê-la, exibe uma série de esquemas e lugares-comuns, postulados de fé elaborados pela religião do marketing e instilados, pela máquina da publicidade, até ao subconsciente da juventude e nem só.
A máquina ensina os jovens, por exemplo, a gritar mecanicamente que "não há valores" . Atrás da juventude, as mercearias e outras multinacionais judaico-cristãs pensam que valores há, sim senhor, desde que traduzíveis em dólares, marcos ou libras.
Tinham de ser, pois, os Estados Unidos, pátria da religião do dólar, a mandar vir cartas nesta-onda oitenta, reciclagem confessa da religião do marketing.
Tinha de ser: nos Estados Unidos, a máquina do marketing já convenceu as novas gerações a esquecer ou ignorar os vinte milhões de pobres que vagueiam pelo extenso território do império ianque, fora os negros que também são milhões.
Instalado, pois, o "pan-merdismo" - assim lhe chamava Zé Afonso - como filosofia oficial de uma sociedade, só falta aos analistas da sociedade, chamados sociólogos, assumirem também esse pan-merdismo na sua sociologia dos fenómenos juvenis.
Chama-se então "neutralidade" da ciência sociológica, aquilo que em estética se chamou "esteticismo" ou "arte pela arte" e que em ética ficou conhecido como "acto gratuito".
Tudo gratuito, pois, ciência, arte e moral, para maior lucro e glória das empresas, ou das leis humaníssimas do marketing.
Mas como a ética volta sempre a galope, porque é uma fatalidade humana mas não metafísica, classificará então de amoralismo ou anti-moralismo, classificará de cinismo,toda esta onda oitenta de rendição total aos mandarins do marketing, que conseguiram dar a volta
total prevista por Herbert Marcuse com o nome de "homem unidimensional".
Só que este "homem unidimensional" já não se entende como um Valor abjecto mas como a vitória da própria exploração do homem pelo homem sobre tudo o que anteriormente - a ciência, a arte, a ética e a política - abria a boca para lhe denunciar a abjecção.♥