2786 caracteres <olhos><ecos>vide <e-olhos><c-f-m-l><cartas> os dossiês do silêncio

HISTÓRIAS MACABRAS

DO MACABRO

        21/2/1992 [este «eco da capoeira», claramente anunciador da (consciência de) ecologia humana, está no entanto escrito em tom de ironia, a única forma que nessa altura ( e ainda hoje) parecia possível para ventilar certos assuntos tabu; deve ter sido publicado em «Barlavento», mas continua actual e aqui o reteclo, em 21/2/1992 - vide <e-olhos><c-f-m-l><cartas>]

O ritmo a que estão crescendo em Portugal os doentes dos olhos é verdadeiramente «excitante» [ ??]. Quem ama o progresso e seja portanto progressista, deve dar pulos de contente. Tantos pulos, pelo menos, como o Dr. Queirós Marinho deu. O júbilo com que este jovem clínico falou aos jornalistas do seu novo Banco de Olhos, no Porto, é bastante significativo deste estado de espírito eufórico. Somos todos olhos para as palavras exaltantes do Dr. Queirós Marinho.

Quanto aos «enxertos de córnea», 90% resultam com êxito. 180 doentes são diariamente atendidos no serviço de Oftalmologia e praticadas 10 intervenções cirúrgicas. Mas há capacidade para aumentar e mesmo duplicar este número-recorde. Pormenor socialista da maior importância: todos os serviços são grátis. Quanto ao «estrabismo nas crianças» reconhece o eminente especialista que ainda há pouco tempo nenhuma criança estrábica aparecia nos hospitais, enquanto hoje -- com o Serviço de Oftalmolgia já instalado -- aparecem cerca de 60 crianças estrábicas por dia, em Santo António.

Também o glaucoma era raro, diz o técnico, e hoje são tratadas por dia vinte pessoas com esta enfermidade. A «vidrectomia» (técnica recente de cirurgia) que quase não teve doentes nos primeiros meses, já tinha marcadas para Janeiro de 1981 dez intervenções. Vê-se agora melhor porque se encontrava tão feliz o Dr. Queirós Marinho ao receber os jornalistas no seu novo Banco dos Olhos. De facto, o ritmo a que crescem os doentes dos olhos não deixa de ser aliciante [ animador]. E não admira que os técnicos falem com entusiasmo de novos centros oftalmológicos, sempre novos centros. De preferência com substanciais subsídios da Fundação Gulbenkian.

Só as transplantações da córnea» são ainda motivo de pequenos impedimentos a este crescente progresso de bancos e serviços oftalmológicos. Mas o progresso tem mais força e há-de conseguir vencer. Por exemplo: a «córnea dos cadáveres» -- matéria-prima, disse ele - tem que ser retirada ao morto num período de duas horas. «Mas o tempo ideal é uma hora», precisou. Para evitar chatices com a Polícia, esta actividade transplantadora está regulada por uma belíssima lei, de 13 de Julho de 1976. É a lei nº 553. Escudado na lei, o técnico garante que nem a obstrução de familiares poderá impedir de irem ao morto tirar-lhe a córnea. «Só se em vida o dador tiver expressamente dito que não quer.» De resto, o técnico vai lá e tira-lhe mesmo os olhos. ©