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10-12-1991

UM CASO MELHOR

DO QUE O DE «LOVE CANAL»?

Claro que os teus conselhos e informações são para mim preciosos e valiosíssimos. Mas tu estás hoje num ritmo da tua carreira que não te podes dar ao luxo de perder, nem que seja alguns minutos, com assuntos relativamente menores.

Com toda a franqueza, eu queria e gostaria que tu continuasses a ser meu advogado na casa ou em alguma coisa que de súbito surja; mas queria dizer-te também que estás à vontade para me indicar um teu colega em início de carreira, que possa ter mais tempo para ocupar com assuntos relativamente menores.

É o caso desta trama «policial» da eventual contaminação em Paço de Arcos causada pela Autosil - empresa de acumuladores, perigosa e altamente poluente, e que não é brincadeira nenhuma: o assunto é conhecido, não é novidade, mas o que pode ser novidade é a suspeita que neste momento se me colocou, quando vi, no papel da Conservatória do Registo Predial, que a casa onde móro está «minada» por linhas de água. Será que tem isto ligação causal com o cheiro que, no meu quarto de dormir, surge em certos dias e durante períodos de várias horas, cheiro claramente oriundo do chão? Levanta-se então uma questão que me parece interessante, e susceptível de interessar um advogado -- na perspectiva de indemnizações a toda a população... -- , pois inclusivé o dossier Autosil, ao que me dizem, já chegou ao Parlamento Europeu. E porque não ao Tribunal Europeu? Era inédito, mas o ineditismo é que, julgo, poderia tornar o assunto mais aliciante para um advogado, nomeadamente se em princípio de carreira. Mas quem sabe se um advogado no auge da carreira, como tu, não achará também o assunto interessante?

É isto, só, o que tinha para te dizer hoje. E de que continuo a fazer as minhas investigações, não só no terreno, mas no gabinete, procurando informar-me de toda a toxicologia dos dois poluentes mais perigosos em causa: o Chumbo e o Mercúrio. Mas quem sabe se não também o temível Arsénico? É que o processo de produção da Autosil, apesar de diligências várias efectuadas nesse sentido, continua desconhecido dos que se têm abeirado do problema. É mesmo um «top secret» da empresa e dos serviços -- inclusive o presidente da Câmara de Oeiras -- que claramente a protegem. No dia em que se souber como e com quê a Autosil polui, não só o ar, o que toda a gente sabe porque cheira, mas o lençol freático -- de que eu suspeito, porque cheira debaixo da minha cama! -- então é possível que o caso de Paço de Arcos se torne num vedadeiro e completo catálogo, a exibir no Tribunal de Luxemburgo(?), de Metais Pesados Perigosos e de Alta Toxicidade. Quase assim como no Love Canal, ou mesmo muito melhor.