<82-12-27-ec> = ecos da capoeira -
LADROCRAC IA
27/12/1982 - A democracia portuguesa caracteriza-se, para lá de outras bizarrias, por uma distinção fundamental que a demarca de todas as outras, mesmo as que vigoram em repúblicas de bananas. Somos de facto o único país onde vigora, sem um protesto de ninguém, o "roubo legal institucionalizado". Quero eu dizer: somos uma das melhores Ladrocracias do Mundo.
Desde o 25 de Abril habituámo-nos a receber em casa ordens de pagar isto e aquilo, ora do fisco propriamente dito que levou o zelo retroactivo quase até ao princípio do Mundo, ora de taxas de uma radiodifusão que nunca uso nem sequer para ouvir o sinal horário, ora dos habitualíssimos "acrescentos" de telefonemas jamais feitos ou de retroactivos relativos à inefável R.T.P., espécie de Comintern Supremo deste País.
Quando chega a carta - a bolsa ou a vida - de aviso, a espórtula é sempre ao abrigo de qualquer disposição constitucional ou de qualquer portaria adrede aprovada na A.R. para o efeito.
Estou aqui recebedor de mais uma dessas cartas-ameaças-chantagens, sujeito a mais um desses roubos legais e claro vou já, já pagar, antes de expirar o prazo de 10 dias. Pago porque me ameaçam de o caso seguir "através dos tribunais" e eu, até poder, não quero nada com eles. Pago porque me ameaçam de "cobrança coerciva" , e como não sei que raio é isso e para chatices já me basta ter nascido em Portugal, dou tudo e mais oito tostões para que me não chateiem mais.
Mas enquanto não me provarem, com documentos e fotocópia que estou em débito dessa importância, atribuída aos anos 1978 e 79, considero que estou a ser vítima de espórtula. Pago mas considero que esta democracia á um canil de rafeiros com arranha-céus para impressionar, construídos sobre o nosso sangue e o nosso dinheiro.
Se de facto isto fosse uma democracia, e mesmo que houvesse abuso de autoridade - como é o caso - o abuso seria reversível. Quer dizer, eu pagava por me ameaçaram de tribunal, mas logo a seguir - se isto fosse um Estado de Direito - quem metia a entidade sacadora no tribunal era eu, cidadão violado. Quando um ladrão nos assalta, é ou não de fazer queixa à polícia? E não faço. Não estou autorizado a fazer queixa deste abuso, desta espórtula, deste roubo.™