<67-09-26-di> quarta-feira, 11 de Dezembro de 2002-scan

 

PORQUE ESTÁ ATENTA

A INDÚSTRIA DAS DISTRACÇÕES

[ 26-9-1967, inédito? ] O sentido lúdico das actividades desportivas, a falta de finalidade que em teoria se lhes atribui, serve à maravilha os objectivos de uma tecnologia que pretende ser uma finalidade em si própria, sem valores (humanos e não humanos) que respeitar e aos quais obedecer; e serve também os móbeis de distrair e adiar que são também os seus.

De facto, não há palavra que melhor se enquadre nos propósitos de uma indústria sem humanismo, de uma tecnologia que só visa o consumo e o lucro das empresas, de uma técnica sem ética: a palavra distracção, aplicada hoje aos espectáculos em geral e aos espectáculos desportivos em especial, não tem (nunca teve) o sentido do homem "ludens" que Huizinga reivindicou, que alguns ingénuos invocam e de cuja pureza nos querem ainda convencer.

Nem só os desportos concorrem para distrair, é certo; mas, após a televisão, o cinema-ópio, a imprensa de sensação, os matraquilhos e a sueca, a bisca e a canasta, a lotaria e o totobola, o desporto entra na categoria dos grandes "dissuasores" e do seu poder corruptor nunca as diversas indústrias se distraem.

Elas, com efeito, são as únicas atentas às distracções dos outros.

Servindo para encobrir e canalisar grande parte da produção supérflua que as indústrias, sem terem ainda satisfeito o essencial, estão interessadas em manter, os desportos em geral e em especial os desportos mecânicos, directamente ligados à exploração de um status quo capitalista, juntam o útil ao agradável por várias bandas: com uma finalidade em si próprios, a indústria automobilística pode alimentá-los até ao infinito e ao paroxismo, sempre em circuito fechado, sem valores, a proclamar ou a defender, como interessa à sociedade de exploradores; pode ir fazendo vítimas (os campeões das pistas) ou vítimas das vítimas (os espectadores atingidos) mas o que interessa à indústria, além de matar a vida e o tempo, é manter e fomentar a psicose do herói.

Os heróis fabricados em tão boa dose nos desportos que cultivam os recordes da velocidade (no ar, na água, em terra) já são úteis (apesar de se dizerem sem utilidade, ingenuamente lúdicos...) às fábricas de motores, de carrocerias, de óleos, de gasolinas; mas, indirectamente, mantendo nas massas a submissão passiva à mitologia que lhes importa, a psicose do "sacrifício" (a causa tão nobre como o desporto, quem pode ser tão reles que negue beleza!), ao "viver perigosamente"; os monopólios petrolíferos e correlativos têm nessa religião dos estádios e das pistas, nas corridas, nos ralis, nos recordes e nos «grand-prix», um dos mais poderosos pilares,

(Não esqueçamos que "viver perigosamente" era uma das normas mais queridas dos ideólogos fascistas).

Adiando, e distraindo as massas dos problemas que lhes importaria resolver, divertindo a técnica para aplicações tecnológicas ou industriais que multiplicam o supérfluo em vez de satisfazer os essenciais, fomentando a histeria do herói e a psicose do "viver perigosamente" , dizendo-se, ainda por cima, ao serviço dos nobres ideais desportivos e do "homo ludens" que é finalidade sem finalidade e portanto actividade por excelência de uma sociedade "feliz e sem problemas", argamassando tudo isto em pasta de sangue e morte - eis formado o quadro de uma Abjecção que, entre outras nossas contemporâneas, nos querem pintar de tintas suaves de "eastmancolor".

Paralelamente ao culto do herói, promovido a todos os níveis, as indústrias sabem que estão a manipular um dos instintos mais profundamente enraizados no homem: não só o gosto do risco e um certo prazer sádico no caminho da auto-destruição, não só um gosto suicida que elimine o grande fardo de existir nesta sociedade canibal de classes, não só o medo à vida e à liberdade e a falta de finalidade ética, o vazio, a alienação que a mesma e dita sociedade e engendrou ao nível do psiquismo individual ; a indústria das distracções sabe ainda que o instinto da competição e o próprio instinto do jogo vive no homem à espera de despertar. E desperta-o para o canalizar até onde lhe convém.

À parte os que vão para a luta (para a competição) comandados inconscientemente pelo desejo de compensarem frustrações da sua vida quotidiana, de adquirirem, com um volante à velocidade de 240 Km/hora, e com a notoriedade o poder que nostalgicamente ambicionam, à parte todas as motivações que a psicanálise denunciaria (desvendaria) e com as quais a indústria também conta, esse pendor para o "pano verde", que tantos romancistas abordaram em livro, esse instinto de desafiar a sorte e o acaso, de jogar a vida ou os dados à espera que a sorte e o acaso se dignem vir ter com ele (o solitário alienado!), é outra das grandes molas que os mecanismos de opressão e as técnicas de reaviltamento devem conhecer para melhor manipular.

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(*) Este texto de Afonso Cautela deverá ter sido publicado e provavelmente já foi passado em scan , antes de hoje. Lembro-me que foi muito elogiado pelo Fernando Dil, não sei se era a sério