<80-12-24-em> = ecos do mundo – eco-ecos – publicados ac de 1989 – 5 estrelas
ASSIM SE HUMANIZA A GUERRA(*)
24/12/1980 - De napalm estamos nós livres.
Haverá guerra , eventualmente chocante, mas sem napalm, segundo os termos aprovados numa conferência da ONU (24.12.1980).
A notícia , dada em pleno Natal, tem um bom sabor de fraternidade entre os homens de boa vontade.
Por isso teve o apoio e a divulgação da Cruz Vermelha, através do seu Comité Internacional.
Assim se humaniza a guerra.
Assim se legisla a guerra.
Assim se planifica a guerra.
Assim se civiliza a guerra.
Assim se organiza a guerra.
Assim se moraliza a guerra.
A já referida reunião da ONU - realizada "para maior defesa da população civil" , evidentemente - aprovou três protocolos: um sobre minas e armadilhas; outro sobre armas incendiárias (o tal napalm); e um terceiro sobre armas que deixam fragmentos não detectáveis com raios X.
De tudo isso e graças à ONU, em colaboração com a Cruz Vermelha, estamos nós livres. Quer isto dizer e por exclusão de partes, que todas as outras guerras ( da bacteorológica à sísmica, da meteorológica à nuclear) venham elas e a gente já cá estará, civilmente à espera, já que civis somos.
Enquanto civis, estamos ao abrigo do "direito internacional humanitário", expressão que, pelo Natal, fica bem na boca dos políticos e nos títulos dos jornais.
Explicando melhor os protocolos aprovados pela ONU, com o das "minas e armadilhas" diz-se ter pretendido "evitar situações como as verificadas no Egipto e na Líbia'' onde - imagine-se o transtorno! - "continuam a encontrar-se engenhos ali colocados há mais de 30 anos!"
Não pode ser. Situações como esta "a retardador", não podem ser admitidas. Os civis não podem estar expostos a estas e outras brincadeiras. Guerra é guerra e logo que a paz seja decretada (legislada, ordenada ) , que raio fazem ali ainda as minas e armadilhas? Trinta anos depois ...
Quanto às armas incendiárias, é preciso que reine a maior moralidade humanista: o protocolo estabelece que, nas zonas civis, estas armas não poderão ser usadas em ataques aéreos.
A conferência aprovou também a proibição do uso de armas que deixem no corpo humano fragmentos que "não possam ser detectados com raios X ".
Que seria da humanidade sem a ONU a velar por nós e pelos direitos humanos?
A história do direito internacional humanitário é emocionante e só marca afinal o grau atingido por esta barbárie chamada civilização ocidental.
Já tem 116 anos e ocupa-se não só da protecção das vítimas em caso de conflito, como da fixação de certas normas para a condução dos próprios hostilizados.
Só em 1977 foram assinados os Acordos de Genebra, que "proíbem ataques à população civil como tal".
Como a "população civil enquanto tal" nunca se sabia qual fosse e como não era possível pedir a todos os cidadãos o cartão do contribuinte antes de os bombardear, os Acordos de Genebra passaram a especificar que, no ataque a um objectivo militar, a "operação será efectuada de modo a causar "o menos dano possível" aos civis.
Assim se humaniza a guerra. Assim se moraliza a guerra.
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(*) Com este ou outro título, deverá ter sido publicado no semanário «Cidade de Tomar», 13/2/1981? ™™™