1-2<flúor-1-ie> = ideia ecológica do afonso - ensaios de ecologia alimentar - Terça-feira, 22 de Julho de 2003

MUDA A TEORIA

CONFORME O NEGÓCIO(*)

(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no semanário «Gazeta do Sul» (Montijo) , 21/10/1978

21/10/1978 - Conforme a indústria e os lucros que serve, a ciência tem, para o mesmo fenómeno, uma teoria diferente.

Desgostosa de ainda não ter inventado um vírus para o cancro, eis que o problema já se encontra resolvido para a cárie dentária, hoje endémica nos países ditas desenvolvidos e bem alimentados.

Segundo o último número do «New Scientist» (o primeiro a dar as últimas), a cárie é interpretada desta vez para servir a indústria da vacina: investigações levadas a cabo nos últimos vinte anos (como são persistentes estes cientistas) teriam descoberto (heureca!) que se trata, na cárie, de uma infecção causada (sic) por micróbios aglutinados à superfície do dente - a placa dentária.

Para dar verosimilhança à descoberta e ao bruto esforço laboratorial despendido, inventou-se logo um nome rebarbativo: a bactéria streptococus mutans (a ciência é formidável nos palavrões!) seria a principal causadora da ruína dentária das arruinadas criancinhas dos países ricos. Essa maldita streptococus mutans transformaria a sacarose numa substância adesiva, insolúvel, que lhe permite fixar-se no dente onde produz (sic) o ácido prejudicial à parte esmaltada.

As laboriosas experiências de vinte anos foram efectuadas com macacos «rhesus», a ver se se encontrava a vacina! E, como não podia deixar de ser, encontrou-se. Comercializou-se. Generalizou-se. Mais uma, heureca!

Embora a vacina, para já, provoque sérios efeitos cardíacos, a medicina não vai hesitar em aplicá-la às criancinhas. Se lhes aplica coisas bem piores! Se as deixa cariar os dentes sem aconselhar, uma só vez, que modifiquem os estúpidos hábitos alimentares, muito melhor lhes vai aplicar a vacina que provoca doenças cardíacas. A medicina não hesita. Mas quem leva roda de cavernícola sou eu, querem ver?

Há, entretanto, uma duplicidade que surpreende: isto para não lhe chamar vigarice ou burla, não vão logo gralhar-me a prosa.

Como todos sabem, há outra teoria para explicar a cárie, a qual teoria afirma que é a falta de flúor responsável pelos dentes podres das pobres criancinhas. Essa outra teoria não fala de bactérias nem de «cocus»! Aponta para faltas ou carências. A cárie, segundo esta teoria nº 2, seria uma doença de carência (curioso que para a teoria n.° 1 seja uma doença bacteriana...): a causa estaria na falta de flúor.

Não se pense que a medicina vai dizer aos pais das criancinhas o que hão-de elas comer para não ter falta de flúor: seria demasiado simples e não iria alimentar nenhum negócio especial. Vai, isso sim, dizer aos produtores industriais de flúor para fluorizar as águas de beber...Mais e melhor: ilustres benfeitores da humanidade já preconizaram que se lançasse flúor na água da companhia.

Se julgam que fui eu a inventar esta anedota, lembro que a imprensa noticiou, em Maio de 1978, a grande novidade: a população da Covilhã iria servir de «macacos rhesus» à experiência que a Organização Mundial de Saúde ali queria levar a cabo, fluorizando as águas para abastecimento público, «por forma de evitar o aparecimento da cárie dentária».

Os benefícios do S. N. S. começam já a sentir-se na Covilhã.

A notícia logo pormenorizava:

«Estes trabalhos têm particular oportunidade, dada a falta de flúor nas águas da região, segundo informou o Eng.. Peixoto Duarte, director-delegado dos S.M. da Câmara Municipal da Covilhã.»

Para estes trabalhos com cobaias vivas, o Prof.. Dr. Martella, perito da O. M. S., já andaria a rondar e teria ido já, de dente afiado, à Covilhã, tendo ficado encantado com os macacos «rhesus» desta magnífica experiência «in vitro».

Desde 1933, na Alemanha Nazi, nunca vira outra tão perfeita.

Para um professor doutor da O. M. S. há sempre um senhor engenheiro e uma população que funciona de macaco.

Viva a Ciência e viva a Medicina!

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(*) Este texto de Afonso Cautela foi publicado no semanário «Gazeta do Sul» (Montijo) , 21/10/1978 ☼☺