1-1 < 92-02-21-ac-ms> ac a miguel serrano - sexta-feira, 28 de Fevereiro de 2003-novo word - 1915 caracteres <estºs-63><miguel><cartas>

Quando o neo-realismo

era o eufemismo

21/2/1992

Miguel:

Não sei se devo fazer mea culpa desse texto e das intempestivas, polémicas afirmações exaradas nele, texto que qualquer pessoa cautelosa e prudente me dirá que claudica em perigosos excessos. Texto que deverá ter sido uma carta enviada não sei já a quem (professor Bizarro?). Pergunto-me porque raio havia eu de amanhecer tão furioso, escrever tão repulsivas palavras contra neo-realistas, se esse não fosse, de facto, um pesadelo, um gulag, o eufemismo, afinal, que tantos anos serviu para pura e simplesmente designar o estalinismo em geral e o da literatura em particular.

Tornara-se já óbvio que não era Redol nem Soeiro Pereira Gomes nem [---], os alvos da (minha) ira, o que então suscitava ódios e diatribes que vinham medrosamente de alguns sectores, nomeadamente surrealistas. Pelo menos eu, o que tentava afrontar não eram esses escritores, coitados, que apenas apanhavam por tabela, às vezes, as minhas críticas, mas uma literatura de uniforme, cujos ideólogos -- esses sim, disfarçados de críticos literários -- queriam amordaçar-nos e calar-nos, tanto como os fascistas. E como eu estraguei para toda a vida a minha carreira literária e nem só.

Acho que, com esse meu folheto sobre «o neo-realejo», que saiu ainda durante «A Planície», consegui comprometer para sempre toda a hipótese de viver e respirar neste país. E ainda o 25 de Abril estava a 11 anos de distância!

Data dessa altura, aliás, da altura dessa carta escrita de Beja, o meu convívio com o Prof. Navalho, pois concordávamos em nos proteger sob o rótulo e a desculpa - o eufemismo também - do surrealismo para os estalinistas não nos esfaquearam com tanta força. Se nos mostrássemos na pele do franco-atirador, era o nosso fim. Era o fim de qualquer, já nessa data.