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< 89-01-17> <ele-1> a narrativa (do) inenarrável - narrativa do último em ele – os guardas do gulag – nas trevas do gulag – os 68 dias de uma revolta – inédito ac de 1989 – as regras de funcionamento do sistemaA narrrativa em «ele» permitiu-lhe – penso – escrever sobre os temas mais tabu, como o gulag comunista, o canibalismo do consumo, o tráfico de crianças (para obter órgãos de transplante), enfim, sobre o inacreditável, o impossível, o inenarrável.
Esta é , então, a narrativa (possível ) do inenarrável.
COISAS QUE CUSTAM A CRER
17-1-1989 –
- Coisas que custam a crer e a pensar
- A consciência moral auto-censura certas ideias que nos passam pela cabeça
- O macro-sistema tem leis de funcionamento: pragmático é aceitá-las sem as adjectivar
- Obriga a objectividade que não se adjectivem os substantivos: a realidade é só objectiva? Ou pode ser também adjectiva?
- Lógica do mercado, moral do marketing e macrosistema: são sinónimos?
- Ascenção e queda dos ídolos
SUICÍDIO DE MARKETING
9/2/1989 - Bjorn Borg, génio do ténis, já na relativa reforma, tenta suicidar-se. (9/Fevereiro/1989)
Assim dirá a notícia, logo seguida de outras, mais interrogativas, em que várias fontes, incluindo jornalistas italianos, se interrogam sobre a "sinceridade" do acto-boato.
Não seria antes um "golpe publicitário"?
Até o suicídio está inquinado da grande dúvida metódica e universal que hoje atravessa, como um espinho, todo o comportamento do homem em sociedade: será ainda possível fazer alguma coisa de "nobre", alguma coisa que não esteja contaminada pela má fé, pela vesga e velada segunda intenção da pecúnia?
Uma figura pública como Borg, que vive da publicidade, terá que, mesmo na reforma, ou exactamente porque está na maré baixa da reforma, fingir, simular o suicídio para que falem dele?
Passavam-lhe tais "coisas" pela cabeça, que ele se ruborizava de vergonha só de as pensar. "Coisas" é a palavra, pois seria demais designá-las de "ideias" ou "hipóteses".
Seria possível que, por detrás das melhores e mais piedosas intenções, manifestada nos meios de comunicação social, por instituições e individualidades, houvesse sempre uma motivação menos nobre , uma motivação digamos "económica"?
(Mas porque seria menos nobre uma motivação económica?) .
Seria possível que a lógica do mercado, a moral do marketing, impregnasse a tal ponto a consciência moral das pessoas?
*
SERIA POSSÍVEL ?
Seria possível que as novas revistas femininas, que nasceram para veicular a massa publicitária da Indústria Cosmética e da Indústria automóvel, não dessem ponto sem nó e que tudo aí - mesmo as mais puras intenções - fosse apenas comércio?
A tal ideia - ou coisa - que ele se envergonhava de pensar , surgiu ao ler um artigo sobre maus tratos a crianças.
Primeiro, uma descrição dramática, comovente, dos maus tratos a que as crianças são submetidas. Aparentemente, é a denúncia correcta e justa feita por um órgão de Imprensa de uma "chaga social".
A terrível dúvida, porém, surge logo a seguir: Será que artigos como este são uma forma encapotada, subtil, extremamente hábil de promover a adopção de crianças portuguesas por casais sem filhos de países ricos da Europa?
É que tudo parece passar-se, de acordo com as ilações possíveis, a retirar de artigos assim, como se uma secreta e anónima organização de casais ricos de países ricos promovesse em Portugal e outros países do Terceiro Mundo, campanhas ampliadoras dos maus tratos a crianças, facilitando um clima favorável a que instituições, como o Tribunal de Menores, condenem pais (autores de maus tratos a crianças) a deixar os seus filhos, que depois serão "exportados" para casais que, com melhores condições, darão vidas melhores a estas crianças.
Uma nova, estranha, insólita vaga da emigração portuguesa.
Hipóteses como esta eram difíceis de pôr mas ele não podia impedir-se de as pôr.
O drama das crianças maltratadas termina em bem na casa de um casal suíço ou alemão, que tiver a sorte de adaptar essas crianças.
Mas essas crianças também terão a "sorte" de ganhar pais adoptivos ricos que as tratam bem, que as tratam muito melhor do que os pais portugueses - pobres - os tratariam.
Uma coisa é totalmente omissa neste tipo de reportagens das novas revistas femininas: a causa sócio-económica dos maus tratos.
E até que ponto é dramática a vida dos pais que, contra natura, são "levados" a maltratar os filhos?
Malvados pais, é? Ou malvada sociedade e malvados "media" que lhe fazem o jogo?
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SERÁ POSSÍVEL?
Outra coisa que ele se envergonhava de pensar, foi no dia em que descobriu uma das regras de funcionamento da economia de mercado.
Os desastres rodoviários só eram problema e só estalavam nos "media" quando começavam a representar, para o Estado ou para as companhias de seguros, um negócio não rentável.
Se de repente os "media" soltavam um longo lamento sobre mortos e feridos das estradas- por detrás desse lamento estavam as companhias seguradoras, para as quais, de repente, a morte deixava de ser rentável.
Ele envergonhava-se de isto lhe passar pela ideia. Primeiro porque não vira mais ninguém pensá-lo e depois porque era demasiado abjecto.
Seria a sua mente tão perversa e abjecta para assim o poder pensar?
Mas adjectivar uma coisa de abjecto e perverso terá algum sentido?
Abjecto seria, à luz do seu (dele) incurável puritanismo.
Objectivamente não havia abjecção, noção adjectiva e moralizante que estava automaticamente excluída dos padrões de julgamento normais.
Objectivamente falando, à luz de uma ideologia funcionalista, era apenas o sistema funcionando de acordo com as suas próprias regras de funcionamento.
Pura tecnocracia, puro pragmatismo.
Vai daí, que mal, há nisso?
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O NAUFRÁGIO DO FERRY BOAT
Outro dos seus arrepios surgira quando, no auge do dramático noticiário sobre o naufrágio do ferry boat -------- ? - um dos títulos dizia: "Naufrágio do ferry acelera projecto do canal da Mancha.»
Mais uma vez, eram as regras de funcionamento do sistema.
Ele é que, fora de moda, sentia estas manifestações normais da lógica de mercado como um insulto à (sua) consciência humana. Nada a fazer.
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LIBERALIZAÇÃO SEXUAL
Igualmente obsceno era outro pensamento que de vez em quando o assaltava: a famosa "liberalização dos costumes", com ênfase para os hábitos sexuais, vinha também inspirada pela lógica do mercado, pela moral do marketing.
Era nítido e claro esse propósito comercial nas revistas "gay" que agora começam a assolar o mercado, com modelos masculinos fotografados, nus, de todos os ângulos e para todos os gostos. O pornogay era a moda mais recente da porno em geral. Depois de saturado o mercado do porno-heterosexual, aparecia o mercado do porno homosexual.
Quem pode levar a mal que o mercado funcione segundo as suas próprias e honestas regras?
Só que esse funcionamento não tem é nada a ver com a proclamada libertação sexual das minorias. Antes pelo contrário, aquele negócio do porno-gay vai prorrogar indefinidamente, como uma data de equívocos, qualquer hipótese de libertação sexual de minorias.
Tanto mais que, ao lado e possivelmente animado pelos mesmos lobbies da edição "porno-gay" a campanha-farsa da sida acelera também.
Mais do que abjecção, estamos em pleno terrorismo.
Pragmaticamente o sistema funciona (porque tem de funcionar) segundo as suas regras de funcionamento: só que o resultado é este, o puro terrorismo verbal e mental.™™™