<domingos>
AC A DELGADO DOMINGOS
Lisboa, 1/Fevereiro/1991 (ano capicua...)
Prof. Delgado Domingos:
E se toda esta crise fosse apenas um colossal embuste, uma espectacular encenação, montada pelas duas máquinas de guerra mais poderosas da Terra, logo que ficou supostamente desactivado o imperialismo soviético?
Desde Agosto que esta hipótese não deixa de me atanazar, sem que, no entanto, pelo seu aparente absurdo, tenha tido ocasião de a discutir com alguém, que naturalmente me iria supor mais louco que os outros dois.
Duas ocorrências, porém, levam-me a pôr em letra de forma este secreto pensamento, esta tímida hipótese que tenho formulado mas guardado exclusivamente para mim: ontem mesmo, quinta-feira, li no «Diário Popular», na coluna telecrítica de Bernardo Brito e Cunha, que o Prof. Delgado Domingos, se teria interrogado, de forma bastante desconfiada, sobre a parte de verdade e a parte de mistificação que haveria na falada maré negra do Golfo Pérsico (também eu já me tinha interrogado sobre alguns aspectos que me soavam a falso em todo esse noticiário da hecatombe ecológica, mas quem sou eu para pôr em dúvida o que os meus colegas jornalistas asseveram, ajudados por imagens e ainda que essas imagens possam ser de arquivo?).
Outra ocorrência, foi um telex aparecido aqui na redacção, que passou obviamente despercebido e a que - suponho - nenhum jornal deu qualquer relevo: um ministro sírio, tão louco como nós os dois, (que nos fazemos certas interrogações e pomos hipóteses de autêntica «politic-fiction») diz que Saddam está feito com a CIA e vice-versa...
O que esta hipótese de «espionagem fiction» tem de inquietante é que torna verosímeis e faz encaixar muitos dos muitos aspectos «suspeitos», contraditórios, teatrais, fanfarrões, de parte a parte, que esta guerra tem.
Por hoje, deixo-lhe apenas este meu desabafo, lembrando que muitas vezes fui acusado pelo José Carlos Marques, entre outros, de ter uma «visão conspirativa da história». Hoje, acuso-me de ter uma visão não só conspirativa, mas absolutamente fantástica do que se passa: o sistema levou a tal ponto de absurdo, alucinado e fantástico o seu poder (auto)destrutivo, que só uma hipótese tão absurda, alucinada a fantástica como ele tem chances de o poder compreender e interpretar.
Claro que tudo isto está no cerne do que pode e deve ser hoje uma visão ecologista radical, subversiva e correcta dos acontecimentos. A leitura da «impensável» e «irracional» realidade actual passa por mecanismos que não podem ser exclusivamente «racionais», de acordo com os esquemas do pensamento lógico. Acho que temos de «inventar » uma «lógica do absurdo» para compreender o absurdo lógico desta guerra que se jacta de ser a mais científica e tecnológica de toda a história.
Pode ser que estas questões não o mobilizem por aí além e nesse caso, pronto, esqueça: ver-nos-emos numa de rotina em alguma das próximas reuniões de cidadãos pelo Ambiente. Mas se, de facto, como as suas declarações ao «Jornal das Nove» me levam a crer, está numa onda próxima desta minha, acho mesmo que temos de fazer uns «brain storming» e troca de informações, peças do «puzzle» que só faz sentido à luz da absurda hipótese da cabala que esta guerra pode ser.
Ou a grande, primeira e última guerra civil dentro da espécie humana como logo a classifiquei no mais recôndito e autocensurado canto do meu espírito...
Não deixa de ser curioso referir que esta é a primeira carta que eu escrevo a alguém, de há um ano a esta parte. Curara-me do vício epistolar, quando me convenci definitivamente que já não podia dialogar com ninguém. Ou por defeito de toda a gente - o que é, evidentemente. impossível; ou por defeito meu, o que é evidentemente o mais provável. Ao quebrar o assumido autismo mental (e de toda a ordem) em que me recolhi, confesso que a culpa foi das suas ultralúcidas declarações ao «Jornal das Nove». E pergunto-me: com o ministro sírio, seremos as únicas pessoas lúcidas ou completamente e rematadamente loucas deste mundo?
[É a primeira carta que escrevo, também, desde que há um ano me vi aprisionado nesta engrenagem do computador como processador de texto...]
Seu infatigável admirador,
Afonso CautelaTM