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OS MEUS

SUSTOZINHOS

2/12/1990, sábado

Mais do que o previsível envolvimento da humanidade num holocausto do tipo «guerra planetária» - que, exactamente por ser imprevisível não vale a pena tentar imaginar - o que me assusta e faz meter o rabinho entre as pernas, são pequenas coisas de somenos:

assusta-me a carga diluviana de publicidade que se exibe na televisão, ou a carga igualmente delirante de publicidade que se exibe nas revistas coloridas;

assusta-me entrar em livrarias como a Barata ou a Bucholz e pensar que nem em trinta mil vidas eu conseguiria ler a trigésima parte dos livros que ali se expõem como leitura «obrigatória» a qualquer pessoa culta;

assusta-me o pedinte sem pernas que se mostra na esquina do Chiado e que nos avisa de uma eventualidade semelhante, ficar a pedir sem pernas, à porta da Misericórdia, nesta ou em outra de mil vidas a que terei de vir;

assusta-me não a sida, feita e inventada para assustar, mas a campanha televisiva que a acompanha e que mostra, roçagante, um preservativo, como se a vida da humanidade dependesse daquele heróico latex ;

assusta-me a manipulação do homem pelo homem, através dos potentes manipuladores de massas que são os «media» audio-visuais e, principalmente, a publicidade;

assusta-me o ar chocarreiro com que a nova vaga de jornalistas anuncia as virtudes da sociedade de consumo, a competição, a corrida para metas, sem que se veja saída para o que nos há-de conduzir todos ao abismo;

assusta-me a debandada que se verifica no seio do Partido Comunista Português, debandada que faz prever um acréscimo de marabuntas e ratazanas disponíveis para se infiltrar por tudo quanto é sítio e ambiente;

assusta-me que ninguém se assuste com o que me assusta( Teilhard de Chardin).

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