<71-01-09-ecc> = ecos da capoeira – diário de um idiota jornalista de profissão – publicados ac de 1971
UM DESPORTO MUITO POPULAR(*)
9/1/1971 – Escreve-nos um leitor de Benavente, abastado latifundiário ribatejano, pedindo que nos façamos eco de um caso sucedido lá na zona e que, segundo ele, merece imediata intervenção dos poderes públicos, pelos reflexos nefastos que pode vir a ter na economia rural e nacional.
Pois fala-nos ele de uma coisa que a gente aqui em Lisboa não sabia: a exportação de raposas começa a ser um florescente comércio nas zonas ribeirinhas mas as dificuldades alfandegárias começam a prejudicá-lo. Diz o leitor, muito assustado, que o problema é mesmo mais grave do que as inundações da lezíria quando o Tejo sobe e transborda, que já se fala em imposto de transacção sobre as ditas raposas e também em imposto de consumo, o que seria francamente catastrófico não só para o negócio como para o desporto daí decorrente, enfim, para o futuro da tão apreciada modalidade cinegética.
Porque, talvez o leitor também não saiba como nós, mas é de uma nova modalidade cinegética que se trata. Para os menos entendidos nestas coisas de matar bichos para gozo próprio, Jornal de Crítica, sempre solícito e explícito, explica: trata-se de pôr umas tantas raposas de focinho afiado a correr como doidas por aqueles montados fora, não sem que antes, adrede alimentados, se não tenham treinado uns cães de fila muito eficazes, daqueles que deitam fumo pelo nariz (salvo seja), daqueles que nem as cadelas gostam, daqueles de caninos afiados que de olhos resfolegantes , prestes a partir, (depois de farejar um bocado de pele, ou de carne, das ditas raposas) vão estraçalhar tudo à sua frente - inclusive as ditas raposas.
Espectáculo este muito edificante como o leitor inteligente está mesma a ver (a imaginar), se acaso não viu na TV e que embora seja só votado às elites com cães treinados e com relações na Grã-Bretanha (de onde se importam raposas de mama, que sempre saem mais baratas), promete espalhar-se pelo país, com velocidade superior à de um galgo, dando a nota elegante, rafiné, blasé e smart aos enfadonhos domingos de certas enfadonhas vilas provincianas.
Eis a excitante proposta que o leitor de Benavente nos diz estar em perigo de vida, se as leis começam a pôr alcavalas em cima das raposas de importação. Como vai ser isso? - pergunta o abastado campino da Ribatejo. Então e depois como vamos nós ocupar os fins de semana?
Nós aqui que não somos latifundiários mas, enfim, modéstia à parte, temos o nosso pézinho de meia muito escondido debaixo do colchão, também nos aflige a expectativa. E achamos que de espectáculo tão humano, tão nobre, tão belo, tão da tradição (britânica), tão tudo, não devem ficar privadas tantas e tão boas famílias das nossas melhores e dessa tão prendada região lezirenta.
Achamos que sim: devem tomar-se medidas urgentes para proteger não só a caça às raposas, de modo a estraçalhá-las sem condicionamentos industriais e sem peias legais, como o desporto higiénico a que elas dão lugar, como ainda ao movimento da balança comercial que permitem através da Mancha, a caminho do Mercado o Comum.
Se a Sociedade Protectora dos Animais o não fizer, prometemos encetar uma campanha barulhenta a favor dessa desprotegida classe que faz da caça à raposa um dos seus hobbies predilectos e um dos seus desportos favoritos. Que diabo: Haverá ou não quem saiba, neste pais, pôr as coisas no seu lugar?
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(*) Publicado no jornal «República» , suplemento «Jornal de Crítica», 9/1/1971 ♥