1-3 - quinta-feira, 24 de Abril de 2003-novo word - <72-02-18-ecc>
18-2-1972
UM CRIME DIFERENTE (*)
Gelado de espanto, li num jornal da tarde a notícia de um crime: "Guarda nocturno assassinado em Pinhal Novo".
Todos os dias há crimes e notícias de crimes, mas este é diferente, quero que seja diferente. Na uniformidade da rotina, que nos transforma de homens em macacos e de macacos em mercadoria (em bestas de carga a levar a trampa da sociedade de consumo), temos, de vez em quando, que abrir excepções para nos garantirmos a nós mesmos (à nossa refastelada consciência de pequenos - burgueses), que ainda estamos vivos, que ainda vibramos de raiva, de revolta, de angústia e de pasmo contra a violência instalada no nosso tépido quotidiano.
Todos os dias há crimes, e notícias que objectivamente os descrevem (mas não analisam nem situam nem explicam), porta, nome de rua, nome da vítima, nome dos parentes (porventura afastados) da vítima. E depois, como epílogo, a pá de terra por cima. Apenas o gesto brusco e desabrido. Mais nada. De novo o silêncio, a cumplicidade, a vil aceitação de que "somos todos assassinos" e não há nada a fazer para não deixarmos de o ser.
Desta vez, porém, é diferente. Recebera eu uma carta do guarda-nocturno da minha área e, pensando que fora essa uma ode das que faltam em Pablo Neruda, projectara, em resposta à carta recebida, escrever o poema que adio há dois anos. Sim, essa carta que a. Seguir transcrevo, porque é ela o poema e não a resposta que eu lhe desse, ressuscita qualquer poeta mesmo morto há anos.
A notícia do crime, no entanto, impede, que escreva uma ode: obriga-me a uma elegia, mais de acordo com este vezo nostálgico é certo, mas menos digna das odes em que Pablo Neruda glorificou as profissões humildes (e gloriosas) dos que confortam a vida pequeno - burguesa do nosso (terror) quotidiano. Os que, afinal, atenuam um pouco esse terror e nos permitem sorrir, ao menos uma vez por semana.
Agora sei que "desconhecidos utilizando um "Wolkswagen" azul dispararam sobre o guarda-nocturno depois de terem forçado a porta principal de um estabelecimento comercial. A vítima, Manuel de Oliveira, de 59 anos, viúvo e pai de dois filhos que não habitam na vila, encontrava-se desarmado".
É o que sei, o que sabemos todos, o que o camarada repórter sabia e anotou. Nada mais. Nem antecedentes da vítima, nem a sua vida, os seus problemas, a sua esperança, a sua casa, a sua saudade ou o seu medo. Nem da sua morte sabemos. Nem da sua solidão nas longas noites de vigília, calcurriando as ruas desertas, confirmando se os trincos das portas ofereciam segurança, sem pedir nada, sem sequer sabermos da sua presença, assegurando, com zelo e brio profissional, a tranquilidade pequeno-burguesa do nosso ( terror) quotidiano. Atenuando um pouco esse terror.
E mataram-no.
Transcrevo a seguir a carta que recebi do guarda-nocturno que faz serviço na minha área. A ironia habitual destas crónicas quero que esteja hoje ausente. Uma vez em mil, falo hoje a sério de uma coisa séria. E grave. E extremamente importante como dizem sempre das suas coisas os participantes em mesas redondas teóricas servidas à hora do nosso jantar pequeno-burguês por outros pequeno-burgueses que têm muitas ideologias na pinha e etc..
Importante, e teste para saber se estou vivo (isto é, se ainda sou capaz de escrever uma ode - ou uma elegia?) é essa carta que recebi do guarda-nocturno da minha área. Esse que foi assassinado em Pinhal Novo por dois desconhecidos utilizando um "Wolkswagen" azul..
A CARTA
Pela presente vem o signatário guarda-nocturno desta área, oferecer os seus serviços e recordar as grandes vantagens que resultam da existência da sua corporação, havendo porém pessoas que pelo facto de possuírem uma chave de trinco, julgam poder dispensar o nosso concurso, é a essas especialmente, a quem desejamos demonstrar que estão em erro.
Existem perigos, aos quais todos estão sujeitos e que o guarda-nocturno evita, pois é devido à vigilância do guarda-nocturno que V. Exª pode repousar tranquilamente e sem receio de que um pavoroso incêndio o faça sua vítima destruindo-lhe a sua vida e haveres.
É ainda o guarda-nocturno que evita que os malfeitores se acoitem nas escadas para fins malévolos, tais como: o levantamento de canalizações de que possam resultar terríveis explosões de gás, penetração de ciladas e muitos outros.
Fastidioso se tornaria enumerar os muitos serviços que o guarda-nocturno presta, bastam porém os já citados para demonstrar a alta conveniência da nossa existência, supondo-se até por essa razão, que os nossos serviços são remunerados pelo Estado, Puro engano! Esta corporação que tem a seu cargo tão grandes responsabilidades, vive exclusivamente das quotas dos seus subscritores, pois que o Estado nada mais lhe dá do que a autoridade para se fazer respeitar, a si e aos haveres dos seus subscritores.
Subscrever pois para o guarda-nocturno é não só assegurar a tranquilidade individual - mas ainda a colectiva.
Aguardando o bom acolhimento, sou com a maior consideração,
De V . Exª
At. Vend. e Obd.
Guarda N°____.
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Regalias que aos subscritores devem ser prestadas pelo guarda-nocturno da respectiva área:
1°- Revistar todas as vezes que julgue necessário as escadas ou estabelecimentos dos subscritores que o prevenirem de qualquer ocorrência que possa ser prejudicial.
2º - Abrir as portas das escadas aos seus subscritores ou pessoas que o procurarem.
3°- Indicar os portadores de telegramas, cartas ou recados para qualquer subscritor ou pessoas de sua família a forma como devem ser procurados e aonde.
4º - Vigiar com particular atenção a casa do subscritor cuja família se retire por algum tempo para fora de Lisboa, se para esse fim for avisado.
5º - Chamar o subscritor ou pessoa da sua família que queira sair a qualquer hora da noite e que o tenha prevenido para esse fim.
6°- Chamar com a maior brevidade qualquer subscritor que em sua casa se tenha dado qualquer sinistro ou nos estabelecimentos, como fogo, portas abertas, furtos ou quando veja que a segurança dos seus subscritores corre perigo em qualquer ocasião da noite em que descansam.
7° - Os guardas deverão prestar qualquer auxílio que os subscritores deles reclamem dentro do justo e razoável, chamar socorros de médico, de parteira ou receituário.
Alumiar as escadas aos seus contribuintes e acompanhar as suas senhoras - quando lhes peçam - ate à sua residência para evitar que algum malfeitor as incomode.
Quando tem qualquer afronta a quem pedem auxílio? Não é ao guarda-nocturno! Pois não se esqueçam de contribuir com qualquer importância para o guarda-nocturno que é a segurança de todos os contribuintes.
NOTA - Nenhum guarda é obrigado a prestar qualquer destas regalias a quem não seja seu subscritor.
18 / Fevereiro / 1972
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(*) Mais um inédito do senhor Afonso, para a caixinha do pechisbeque barato, atulhada de quotidiano lírico... Ainda por cima, todo este discurso assentava num pressuposto que a carta do guarda-nocturno, lida hoje, se percebe qual seja... Afonso desconfiado que afinal tanto confiava. ♥