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A IDEOLOGIA

DOS QUE NÃO TÊM IDEOLOGIA.

9/Novembro/1990,às seis horas - Para fazer chegar ao respeitável publicozinho a santa, sagrada e neutral mensagem dos neutrais senhores cientistas, no laborioso lavor dos seus recolhidos laboratórios, há sempre um Rui Cardoso, um Vitor Malheiros, um ..........

Aí o jornalista tem direito a estatuto de especialista, já não é topa-a-tudo, a megera para todo o serviço. À ciência todos rendem o necessário culto. Porque a ciência tem para fazer chegar ao publicozinho, que é gordo e magro, que é toxicodependente e toxicoindependente, que é velho e é jovem, que é seropositivo e seropositivo, a mensagem que é fatal para um dos termos que não estiver então na moda.

Agora, por exemplo, a velhice está de baixa. A terceira idade passou da fase do elogio sistemático à fase de sistemático rebaixamento. Com o gordo e o magro já se passou idêntico fenómeno. A ciência agora descobriu que o magro é que é bom, é que dá lucros às «body clinic's», às cosméticas. Acontece que, sendo eu magro e velho, sou exaltado nos magazines coloridos às 2ªs, 4ªs e 6ªas mas vituperado às 3ªs, 5ªs e sábados. Só o domingo, dia santo de guarda, me é dia de paz comigo e com o Senhor.

O que acabo de ler sobre o destino a dar aos velhos numa sociedade progressista e baseada nos santos princípios da sacrossanta ciência, deixa-me todo arrepiado de medo e faz-me perguntar se eu não andei a descontar toda a vida para a segurança social, para agora vir o colega Rui Cardoso, o colega Vítor Malheiro Dias, o colega, locupletar-se com os meus descontos e, com eles, escrever artigos a dizer que o melhor destino a dar aos velhos é os crematórios dos amigos nazis.

É onde leva sempre a ideologia dos que não têm ideologia.™