<68-11-08-di> quarta-feira, 15 de Janeiro de 2003

APENAS A EXPLORAÇÃO

8/11/1968

Na cidade e, mais concretamente, nos lugares onde habitualmente se move, encontra o homem "marcado" a única fonte de inspiração. Dela terá de fazer também a arma defensiva. Dela fará o testemunho e, se possível, a metamorfose.

Os versos prolongam um diário que é a margem esquerda do sofrimento quotidiano. Sofrimento perante o qual, princípios, teorias, projectos, promessas, sistemas, ideias, instituições, discursos, são abstracções criminosas e pertencem a outro mundo.

O mundo é este, a desordem radica aqui, o terror explode na cara e nas mãos, o agressor fica paredes meias e opera perto. No quotidiano existe a única realidade que merece atenção porque é a única que põe em constante risco a integridade. Isto em termos de quem no lugar do sistema nervoso não tenha ainda um mecano de madeira, cortiça ou aço.

Porque os há blindados, para quem o quotidiano não conta. Porque há os donos do quotidiano, que na sociedade de consumo encontraram a construção abstracta capaz de absorver o terror real e prático. "Sociedade de consumo" - e agarra a teoria com a fúria de quem encontra a suprema explicação da suprema Abjecção.

De consumo ou de não consumo, o homem "marcado" sabe que a causa está acima dessa e que a antecede. A causa vem do teor competitivo que, fora e dentro do capitalismo, caracteriza o único tipo de sociedade que a estupidez humana até hoje foi capaz de conceber.

Se o consumo refina a exploração do homem pelo homem e todas as manifestações de segregação racista daí decorrentes, são os teóricos que criticam a exploração capitalista os primeiros a executar, na prática, qualquer um que saia do sistema e não se adapte à religião ou opinião do grupo.