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<88-01-02> domingo, 19 de Janeiro de 2003- <alienação-2-IE> consumidor em bolandas – a publicidade é que educa, a propaganda é que instrói – temas recorrentes – o direito de resposta
CULPADO É SEMPRE O CONSUMIDOR (*)
(*) Saiu publicado num jornal da Anadia? Qual? Quando? (Ver arquivos implacáveis do AC)
2/1/1988, sábado - Arte mágica de transformar o chumbo em ouro, a publicidade consegue maravilhas.
É fantástico.
Não há miséria, crime contra a saúde pública, atentado à segurança do cidadão, sofisma político, aberração económica, pilhagem tricontinental que a publicidade, no seu misto de propaganda, não consiga "vender" como produto de (boa) marca.
Pesticidas, afinal, não são venenos e as antenas hertzianas, às seis da manhã, já provaram, ao longo dos anos, que pesticida na sopa é o melhor que há, dá saúde e faz crescer.
Impostos, ao fim e ao cabo, também não são a pura desvergonha da pura exploração do homem pelo homem: podem até contribuir para a qualidade de vida das populações, como qualquer autoridade económica a esta hora já demonstrou pelas antenas da rádio e da televisão, pelos "mass media" em geral.
Quanto a refrigerantes, além de darem mais vida e cor à nossa parda chatice quotidiana, são até capazes de dar baldes de plástico, o que não é menosprezável como utilidade doméstica para receber a baba dos políticos domésticos.
Energia nuclear, então, é o verdadeiro paraíso: vem agora um (mais um) eminente cientista demonstrar quão segura ela é, a tal ponto que nem as companhias de seguros cobrem riscos nucleares de qualquer espécie. É a prova provada da inocuidade de uma indústria - a electronuclear - capaz de, por um lado, armar o mundo até ao dentes e, por outro, proporcionar-lhe níveis de progresso inimagináveis. Como aliás é bem visível em todos os países que há mais de vinte anos produzem energia nuclear «pacífica».
Não faltam, também, virtudes à moda, que deixa assim de ser o motor que multiplica o lucro e o desperdício na saturada engrenagem capitalista, para se tornar, aos olhos das massas instruídas pelos meios audio-visuais, um campo artístico e estético de alto gabarito, pondo à prova as capacidades lúdicas (escrevi lúdicas) da espécie.
Desporto significa também a face lúdica do homem, é componente imprescindível do dolce farniente que porventura sobre da exploração e da alienação maciças: apesar de reconhecidamente alienante, o desporto proporciona lindíssimas "sagas", palavra que as locutoras da R.T.P. decidiram utilizar à velocidade de trinta vezes por hora.
Com o desporto nunca os "mass media" (têm o nome com eles) podem queixar-se de falta de assunto.
MÁQUINA DE PRODUZIR DOENÇAS VAI DIZENDO QUE AS CURA (*)
A. independência com que jornais e jornalistas falam de problemas médicos pode ser medida pela publicidade indirecta que as firmas químico-medicamentosas fazem através dos órgãos de Comunicação Social.
Regra geral é sob a rubrica "temas de saúde" que se vende toda a ideologia contida no famigerado "combate à doença". Desde Ministros e Direcções Gerais (ditas) de Saúde até ao divulgador de artigos e notícias, a confusão entre Saúde (mantê-la) e Doença (combatê-la) é geral e como que intencional.
Faz-se crer que não há publicidade médica e farmacêutica nos jornais de informação geral. Faz-se crer de que essa publicidade (explícita) é totalmente canalizada para órgãos de imprensa especializada, que aliás proliferam. Mas a verdade é que os meios de informação geral são invadidos por toda uma verbosidade - publicidade indirecta, implícita - não só mais eficaz na lavagem colectiva dos cérebros, como de efeitos muito mais duradouros.
A maior parte do que aparece escrito em jornais sobre doenças de plantas, homens e animais é publicidade (paga ou não) das companhias que produzem os correspondentes produtos químicos que dizem combater essas doenças.
Pergunta-se: onde começa a informação e acaba a propaganda?
Até onde vai a cumplicidade dos médicos e da medicina nesta propaganda?
Terá o público a informação que merece?
Se o que aparece nos jornais, a pretexto de saúde, é directa ou indirectamente emanado das empresas químico-farmacêuticas, até que ponto o leitor está também transformado num frango de aviário, condicionado por esta poderosa máquina de produzir doenças dizendo que as cura?
Da publicidade expressa à subtil, todo o discurso em favor da nossa saúde é efectivamente um louvor às multinacionais da Química que são também as do Petróleo.
Os spots publicitários na RTP, ou pequenos "selos" na Imprensa, denotam um conceito de "convencimento" e de "propaganda" completamente inócuo.
O conselho do tipo bonzinho ao consumidor, para que poupe, para que não desperdice, para que não estrague, - tudo isto num contexto de esbanjamento, desperdício e corrupção - além do mais, é irritante. E contraproducente.
PESTICIDA NA SOPA
1982 +- - O carácter manipulatório da publicidade na televisão acentua-se com os anúncios de pretensões moralizadoras , ou antes, moralistas.
Distorcendo o alvo ou inimigo principal, os aparentemente bons "conselhos" são afinal os mais venenosos.
Regra geral, escolhe-se o cidadão para "bode expiatório" de erros, crimes, desperdícios e escândalos cujos culpados são muito capazes de ser, algumas vezes, os próprios senhores das entidades que mandam publicitar os ditos anúncios
Quando surge um irritante "spot" directamente dirigido ao consumidor vulgar de água, dizendo-lhe com agressividade "acabe com o desperdício de água", dá ideia que somos nós, cidadãos vulgares, os culpados da E.P.A.L. ser o que é (e não dizemos aqui o que é), de o País ser o que é, e de a seca nos flagelar, por culpa das Celuloses que plantaram os eucaliptos que nos beberam a água.
A propósito de Celuloses, não deixa de ser patético que um outro anúncio, voltado para a moralização dos incendiários, ponha também a tónica das culpas no distraído fumador da ponta de cigarro mal apagada e outras fantasias perfeitamente obscenas de quem sabe melhor do que ninguém que 90% dos incêndios nos pinhais não são ocasionais mas provocados por altos interesses da madeira e da exportação, devidamente organizados e planificados.
Um outro anúncio indecente é o dos aparelhos a gás, anúncio que põe, é claro, as culpas todas em cima do consumidor.
"Só fazem disparates" declara o actor que faz de bombeiro no spot da televisão. "Compram aparelhos não estampilhados" (boa publicidade indirecta aos estampilhados, que não precisam de pagar anúncio...) - reza ainda o actor-bombeiro. Mas, além de um artigo aparecido no jornal " A Capital", quem da Direcção Geral da Qualidade se preocupou em informar o público de que existia tal coisa?
Mas onde este anúncio atinge o sublime é quando culpa o parvo do consumidor por não recorrer ao serviço de pessoal especializado na montagem do dito fogão.
Essa tem pilhas de graça: pessoal especializado onde é que ele está? Quando existe, a que preço vem a casa? E quando vem a casa, quem nos garante (quem?) que não faça piores asneiras ainda do que um pessoal (que se diz )especializado?
O não especializado, por seu turno, quando aparece, sempre contrariado como se estivesse a fazer um grande favor ao consumidor, fazendo-se rogado e deixando a vítima dias ou semanas à espera, quando aparece cobra o que lhe apetece: quem controla isto, quem?
Quando o consumidor em Portugal está totalmente entregue aos bichos, que raio de moralidade têm estes anunciantes que culpam o consumidor das culpas que às entidades responsáveis (irresponsáveis) puramente incumbem?
"Cambada" é o único desabafo lícito que o sacrificado consumidor deve ter no meio de toda esta retórica de um poder institucionalizado na podridão e na devassidão, sem moral absolutamente nenhuma de vir pregar moral a ninguém.
Um poder que faz do consumidor em particular e do cidadão em geral o seu inimigo principal, ao menos que cale a boca e não venha exalar o mau hálito dos conselhos à gente.
De facto, que grande cambada.
Outro anúncio, frequente nas antenas da Rádio, logo pela manhã, é o que adverte o consumidor dos cuidados a ter na manipulação de pesticidas: " Não ponha na sopa" recomenda a empresa nacionalizada. E o público já não põe o pesticida nacionalizado na sopa.
Mas ao fundo da página do jornal, há sempre mais uma "criança" ou um adulto culpados de ingerir "veneno de escaravelho" por seu descuido e descautela.
Pois não é claro, mais uma vez, que o culpado é quem ingeriu o veneno depois da empresa nacionalizada, maternalmente, lhe ter aconselhado todos os cuidados?
O culpado é sempre o consumidor que se péla por "pesticida com laranja", como comprovam as estatísticas do I.N.E..
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(*) Saiu publicado num jornal da Anadia? Qual? Quando? (Ver arquivos implacáveis do AC) ■