1-2 <91-04-16-ecc-> sábado, 25 de Janeiro de 2003-novo word <abril16> <diario> <geral>3438 caracteres -[notícias da clandestinidade]
VEJAM LÁ NÃO PARTAM OS CORNOS
COM A PRESSA
16/Abril/1991
Beicinho tremente de emoção, baba caída, veio o dos Transportes anunciar que a «espinha dorsal» dos caminhos de ferro portugueses, a viagem Lisboa-Porto, iria passar a ser feita em duas horas e meia, o que iria custar os [---] milhões da ordem, tirados via fisco aos portugueses, e isto para fazer face à concorrência do avião e da telepatia, que andam, os sacanas, cada vez mais velozes, muito mais velozes que o pensamento.
O dos Transportes -- porra -- estava visivelmente excitado, porque as metas, a velocidade, o gigantismo, o mais+mais+mais, raiz quadrada de infinito, excita sempre o sistema glandular e protídico de um ministro que é, todo ele, uma glândula endócrina ambulante.
Não cabemos em nós de contentamento com a certeza de que iremos num foguete de Lisboa ao Porto, como se nos puxassem fogo e gás ao rabo.
Ah! grandes rabinos do nosso progresso!
Que se amolem as terras do interior, não são coluna vertebral nenhuma, quanto muito os testículos do País e nos testículos o Ministro não toca. Mas na coluna vertebral é vê-lo a massajar, a massajar, cuidado que é todo ele cuidados de estremosa mãe para com o seu filhinho predilecto. O torto, o autista, o surdo, o sifilítico, que se lixe. Quem é mãe a sério, quem é pai com virilidade suficiente, trata dos filhos bonitos e robustos não trata dos abortos.
O outro pai da Pátria bem avisou: a modernização vem aí, a palavra de ordem é mais e mais depressa, por causa dessa coisa analéptica, catatónica, escalifobética, electrónica, que se chama competitividade.
Coitados, pagam-lhes para que eles se excitem e componham os poemas épicos do progresso. Lisboa-Porto em 21090 segundos merece bem uma edição prínceps de «Os Lusíadas».
Vamos descobrir o caminho ferroviário para o Porto em duas horas e trinta e cinco minutoas. O outro bem discursou: a palavra de ordem é mais+mais+mais (cuidado não se engasguem) depressa. Coitados, pagam-lhes para que se excitem
Para que tenham orgasmos nas bordinhas do País que resta dos bocados todos que os mastins da CEE hão-de ir levando.
Pagam-lhes para que se masturbem com as ideias de grandeza, com os ideais de megalomania e fartasana.
Pagam-lhes para que eles desempenhem este papel de palhaços.
Mas sobre os mitos do gigantismo, as metas de merda, a merda das metas, já eu perdi tempo demais que tinha a perder. Se os portugueses quiserem perceber o funil onde estão a ser metidos, com a anunciada luzinha ao findo do túnel, que percebam ou vão ler-me à Hemeroteca.
Eu também já estou rendido ao progresso e todos os dias me venho com mais uma estrada, uma autoestrada, uma ponte, uma carreira do caneco, uma velocidade, uma meta, uma merda.
Eu cago abundantemente, e portanto, toda esta orgia, toda esta indigestão, que lhes há-de sair a eles pelos olhos. Eu cago nos ministros excitadíssimos com a velocidade, que fazem cópula com a velocidade, com orgasmos públicos transmitidos por quatro canais em simultâneo, incluindo o da Igreja, porque um orgasmo, mormente de obras públicas, também deve ser rápido, eficiente, cómodo, segundo todos os santos com serviço de bar ao domicílio, tal como a viagem, de Lisboa-Porto -- vogando sobre nuvens azuis de algodão -- para a burguesia vermelha pagante e os executivos cinzentos igualmente excitados com toda esta orgia de velocidades.
Quem será o primeiro a partir os cornos?™