1-3 domingo, 19 de Janeiro de 2003 - <chernobyl-1> os dossiês do silêncio

AGORA É TARDE (*)

24/5/1986 - Com Chernobyl, há quem diga, terminou a Terceira Guerra Mundial, a guerra total e atómica sem sobreviventes. De facto, não se vê como, ainda hoje, possa haver antropóides loucos, a leste e a oeste, que queiram multiplicar por mil a brincadeira de Chernobyl.

Talvez se possa dizer «a guerra nuclear acabou», mas a verdade é que alguma coisa de completamente novo começou. É este «salto qualitativo» que os cronistas do evento ainda não quiseram perceber, aplicando-lhe esquemas mentais de «antes de Chernobyl».

«Nada irá ser como dantes», costumam dizer os políticos em ocasiões que, na perspectiva do seu umbigo, consideram «nunca vistas». Desta vez não é nenhum umbigo da política: é o planeta que vira uma página, é o princípio do fim, é a certeza que retóricas e professores estruturalistas de retórica ficam agora, mais do que já eram, inúteis, ridículos e ocos.

A SÍNDROMA DA DESADAPTAÇÃO

Consumado na central nuclear de Chernobyl o que poderá ter sido o «acidente máximo», a situação é de tal modo inédita e única em toda a história humana que, para lá do acontecimento em si mesmo, se gera todo uma «síndroma de desadaptação», ao qual iremos continuar assistindo, não sabendo rigorosamente nada ao certo do que se passou e passa.

Os contra-factos têm sido tantos que autorizam uma leitura totalmente céptica em relação às notícias finalmente filtradas sobre o que se passa, está passando, vai passar. Pelo que o «ainda pior» é de supor.

Muitas das reacções ao acontecimento são francamente «naif» ou tardias. Inclui-se nestas a decisão tomada pela Comunidade Económica Europeia de não importar produtos agrícolas frescos do Leste... quase três semanas depois do acidente ter lançado para a atmosfera altas doses de radiações.

E digo «quase» três semanas, porque não se sabe ao certo quando a história da maior catástrofe da História começou. Desde 23 a 28 de Abril, seis a sete dias são dados como prováveis. Será uma data histórica sem data certa, facto que não é relevante, pois bem pode suceder que não haja gerações futuras que indaguem, mas que, desde logo, anuncia o sim-não, o nim que caracteriza a onda desinformativa sobre o acontecimento.

O desaforo das instituições culpando o jornalista por tudo o que de mal acontece no planeta, atingiu com Chernobyl o clímax.

Sem bodes expiatórios para onde atirar as radiações que durante três décadas levaram aninhando nos ímpios seios, os tecnoburrocratas da energia nuclear viram-se agora para os jornalistas, culpados do pânico que se podia ter instalado nas populações ao saber o nível de radiações.

Com Chernobyl, teria chegado o momento de fazer engolir aos nucleocratas por atacado estas e outras melodias. Não contentes em ter afocinhado a humanidade neste pântano-pocilga, os chefes máximos ainda se permitem ensinar os jornalistas a fazer notícias.

ECOLOGISTA OU CÃO DE GUARDA?

Quinze dias depois, na democrática França, vem a saber-se que os níveis de radioactividade teriam atingido cúmulos altíssimos, sem que ninguém responsável tivesse dito à população «escondam-se».

Mas o ineditismo do acontecimento cria outras reacções tardias, naifs e mesmo ridículas por despropositadas.

Irritante tem sido a insistência de alguns cronistas em perguntar, afinal, onde estão os ecologistas que se não manifestam, agora que a única coisa sensata a fazer é chamar bombeiros e enfermeiros.

Houve mesmo quem perguntasse onde estão os ecologistas para ir protestar junto da embaixada soviética em Lisboa (sic, sic).

Só visto! Verdade também que não vimos nunca os cronistas, antes de Chernobyl, preocupados com o que pudesse acontecer ao planeta. Continuar a mandar para as costas dos ecologistas a responsabilidade de serem eles e só eles a batalhar pela sobrevivência de nós todos, só por piada e anedota.

É irritante e tola esta concepção que alguns cronistas agora manifestam do que terá de ser um ecologista militante, espécie de cãozinho fiel que a porca sociedade industrial teria de guarda e sempre à mão para (lhe) proteger os jardins da classe dirigente construtora de centrais e outras abominações.

ORA ABÓBORA (RADIOACTIVA)

Ecologista, se alguma vez foi ou serviu de alguma coisa, unicamente a função de despertar, de catalisar, enquanto era tempo, os movimentos civis de populações para a sua própria autodefesa.

Não quiseram, não ouviram, filósofos bem pensantes acharam sempre que era exagero. Semanários que agora não se calam com Chernoby1, levaram anos de silêncio para tudo, reformista e radical, que surgisse no horizonte como se ecologismo fosse lepra.

Quantos insultos tivemos nós de suportar de toda esta elite que apoiou sempre, em segredo e por omissão, os tecnoburrocratas do nuclear, sem sequer ter a coragem de o dizer de frente, e porque afinal de contas «não somos contra o progresso».

Ora, abóbora, meus senhores: aí têm o progresso, em Chernobyl. Agora é tarde, tardíssimo. O trabalho que, durante anos, os ecologistas tiveram de desempenhar, desemburrando mentes e propondo alternativas de vida, perdeu sentido depois de Chernobyl:

a) No aspecto de denúncia, perdeu sentido porque basta uma única Chernobyl a debitar até à eternidade para substituir campanhas, bandeiras, autocolantes antinucleares. «Chernobyl a debitar e nós a descansar», dizia um, todo satisfeito e já a lamber-se com a reforma à vista.

b) No aspecto das alternativas de vida ainda possíveis ontem, antes de Chernobyl, elas já não têm também sentido depois de Chernobyl que, na melhor das hipóteses, inundou/inundará de radiações o planeta.

É tarde, demasiado tarde

É tarde, demasiado tarde para todos e para o ecologismo, que só teve algum sentido até 25 de Abril de 1986. Agora, um minuto depois, a saída já não é rastejante e horizontal: se há saída, ela é vertical, chamada saída mística ou iniciática. Ou a suicida; «beijemos os filhos e oremos». Uma das poucas frases com sentido pode ser esta: «Façam ioga, vão para o Mosteiro do Mu aprender a transmutar».

O resto é protecção civil, bombeiros, luta contra radiações, abrigos antinucleares e outras medidas pós-«mortem», tipo Cruz Vermelha ou Caritas, que cabe humanitariamente a bombeiros e enfermeiros desempenhar.

Manifestações junto da Embaixada da URSS, como propõe Rui de Brito, quando Chernobyl é todos nós, seria a última das reacções «naifs» de uma síndroma de completa desadaptação ao acontecimento.

O desafio hoje, em profundidade, é este: tudo na Terra e em função das capacidades exclusivamente humanas, perdeu sentido com Chernobyl. Os hedonistas ganham e perdem terreno. Antes de Chernobyl, fazia sentido ter um pouco de fé na humanidade e na sua capacidade de mudar a tempo, de não se enfiar de cabeça no abismo. Acontece que se enfiou. Perdida a esperança, «morrer de gozo», ou «gozar até rebentar» pode ser agora a palavra de ordem hedonista, glosada por Pasolini na fita hedonista-sadista «Os 120 Dias de Sodoma».

Com Chernobyl chegou a era dos hedonistas («gozar até rebentar») mas chegou também o tempo dos místicos, visto que são eles os únicos a cultivar a parte da matéria chamada espírito e resistente às radiações. Fartos do sadomasoquismo das filosofias cristãs ocidentais, muitos se voltam definitivamente para a prática acelerada e intensiva do dharma búdico.

Se o choque de Chernoby1 ainda não chegou para abrir as cachimónias quanto ao papel no mundo moderno da assunção búdica, então Chernobyl e suas vítimas directas para nada serviram.

Aprender a viver, aprender a morrer: nunca foi outro o programa das poucas vozes isoladas ditas ecologistas.

Se Amigos da Terra, Green Peace e outros grupos encarregados de fazer o frete ao sistema, deram do ecologismo a imagem folclórica, boazona, conservacionista, reformadora, a culpa não é nossa. Caberia aos cronistas de Chernoby1 informar-se dos ecologismos que houve, para isso já houve bastantes edições «Frente Ecológica» no mercado, agora esgotadas.

Com Chernobyl, chegou a hora de «falar duro» e de as palavras já não conseguirem ser suficientemente violentas para expressar a violência das instituições. Pela primeira vez, somos nós (finalmente vingados) a falar alto: viver ou morrer é, como de há muito dizem algumas vozes, a única questão.

Se Chernoby1 não servir para tornar isto sensível e claro a milhares, de nada serviu evacuar Kiev, de nada serviu o «heroísmo» nacional das 300 vítimas que contraíram leucemia para evitar o pior em Chernobyl.

FORTE ALIBI PARA O PIRRONISMO

Ver se ainda vamos a tempo de tornar menos dolorosa, menos triste, menos abjecta, a vida das gerações que apanharam, estão apanhando e vão apanhar nos genes o grosso das radiações, é a atitude minimamente moral ainda a assumir, no meio da imoralidade como norma e do vale tudo.

Nunca a juventude teve um alibi tão forte para o que a sociedade chama «delinquência juvenil», para o seu pirronismo latente. Nunca a juventude teve tão claramente razão para se borrifar nesta sociedade, nesta classe dirigente, nesta classe atómica que lhe preparou o bolo envenenado de todas as Chernobyl.

Já não é hora de manifes: é a hora talvez de a juventude abrir os olhos, pegar nos nucleocratas e metê-los na cadeira eléctrica por crime contra a humanidade.

O que também, diga-se, já não adianta rigorosamente nada.

Agora é tarde, muito tarde. Por isso e pela primeira vez num largo calvário de largos anos de pregação, o maluquinho da frente ecológica poderá dizer: chegou a (nossa) hora.

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(*) este texto de Afonso Cautela foi publicado no jornal «A Capital» (Crónica do Planeta Terra), 24/5/1986